[RESENHA #485] O barão nas árvores, de Italo Calvino

CALVINO, Italo. O barão nas árvores. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.

O Barão das Árvores de Italo Calvino, traduzido por Nilson Moulin, é um livro simples, fácil e gostoso de ler. Tem também uma resenha musical do grupo Cordel do Fogo Encantado - trata-se da música O listech (também conhecida como O barão das árvores) do terceiro e último álbum Transfiguração. Como diz a canção:

“Contarei a história do barão

Que comia na mesa com seu pai

Era herdeiro primeiro dos currais

Mas gritou num jantar

‘Não quero nada!’

Nesse dia subiu num grande galho

Nunca mais o barão pisou na terra”

A diferença é que no livro Cosme é o herdeiro do Barão de Rondo. O pai era um fidalgo que aspirava a títulos mais elevados, como duque, e por isso fazia questão da etiqueta dos filhos (além de Cosmo, havia Biagio, o irmão mais novo, e Batista, a irmã maluca que gostava de caçar caracóis, ratos e nojentos animais), sempre com a esperança de ser convidado para uma festa ou outro grande evento para promover uma possível candidatura ao ducado. A mãe era chamada de general porque suas preocupações eram de natureza militar.

Por pressão familiar, principalmente do pai, e caprichos da irmã, Cosme decide não comer a sopa de caracóis preparada por Batista no almoço:

“Recordo (a história toda é narrada pelo irmão Biágio) que soprava vento do mar e mexiam-se as folhas. Cosme disse: ‘Já falei que não quero e não quero!’, e afastou o prato de escargots. Nunca tínhamos visto desobediência tão grave” (p. 7).

O episódio ocorreu em 15 de junho de 1767. Naquele dia, antes que o pai o chutasse da mesa, enquanto o irmão comia a nojenta sopa de caracóis de medo, Cosme já havia deixado o almoço e subido em uma árvore do jardim. No mesmo dia, pôde perceber o que se escondia atrás dos muros da fazenda de seu pai, como o jardim Rodargem, os vizinhos e inimigos da família Rondo.


Espiando por entre os galhos, Cosme observa a menina no balanço de Viola e, brincando, diz a ela que ela nunca mais tocará o chão, enquanto ela duvida. No entanto, ele levou isso tão a sério que nunca mais pôs os pés no chão. Desde então, Cosme de Rondo vive nas copas das árvores. Lá ele fazia de tudo: tinha que aprender novos hábitos, como andar de galho em galho, dormir sem cama, fazer as necessidades sem vala, etc...

Cosme viveu assim, independente da vida normal cheia de deveres que todos levavam, conseguiu dedicar-se a várias coisas, mas a mais interessante de todas foi como adquiriu o gosto pela leitura. Um certo bandido João do Mato apresentou-o aos livros; Quer dizer, ele adorava ler, e um dia, num impulso inesperado, jogou uma corda para um bandido subir em uma árvore para escapar dos guardas, deu alguns livros para o terrível João do Mato, que se apaixonou pela leitura. Pediu então livros a Cosmo, cada vez em maior número, a ponto de o herói ter de estabelecer uma correspondência contínua com um livreiro da região, que lhe arranjava os livros mais importantes da época.

João do Mato tornou-se um leitor voraz e exigente: não queria qualquer romance, queria bons romances, bons livros filosóficos, etc. Também aí Cosme começou a ler um livro após o outro. Chegou a estabelecer correspondência com Voltaire, Rousseau e Diderot.

Aqui entra a parte interessante e divertida do livro, quando Italo Calvino começa a brincar com as ideias desses importantes filósofos do século XVIII. Um episódio engraçado ocorre no capítulo 19, com o fim do romance de Cosme e Úrsula, quando, para esquecer a dor que sentiu durante a separação, decidiu dedicar-se aos estudos:

"Na convalescença, imóvel numa nogueira, acalmou-se nos seus estudos mais exigentes. Nessa época, começou a escrever O Projeto de Constituição de um Estado Ideal Baseado na Copa das Árvores, no qual descrevia uma República da Árvore imaginária habitada por homens justos. Ele começou como um tratado sobre leis e governos, mas sua propensão para inventar histórias complicadas acabou levando a melhor sobre ele enquanto escrevia, e o resultado foi uma série de aventuras, duelos e histórias eróticas, que foram inseridas no capítulo sobre sim conjugal. O epílogo do livro deveria ter sido este: o autor que fundou o estado perfeito acima das árvores e persuadiu toda a humanidade a se estabelecer ali e viver feliz, desceu para habitar na terra deserta. Deveria ter sido, mas o trabalho permaneceu incompleto. Enviou o resumo a Diderot e assinou simplesmente: Cosme Rondo, leitor da Enciclopédia. Diderot agradeceu com um bilhete” (pp. 155-156).

A passagem continua a ser uma crítica ao uso irracional das ideias desses filósofos franceses do século XVIII. Isso significa que só quem leu a Enciclopédia pode ter a ideia de escrever tal Projeto de criação de um estado ideal baseado nas árvores, que imagina apenas os homens como habitantes, como aparecem em Rousseau e Diderot. A propósito, a ironia de Italo Calvino pode muito bem ser estendida ao primeiro, que escreve o famoso aforismo sobre o "bom selvagem", já que Cosme vivia aos olhos dos outros como um selvagem. Em muitas passagens do livro, Biagio conta como seu irmão era comparado aos índios da América, com seus hábitos selvagens de viver nas árvores e imitar os sons dos animais, caçar e comer comida fria (como Cosme conseguia esquentar alguma coisa nas árvores). . ?).

Em seguida, no capítulo 20, Biagio relata uma viagem que fez a Paris, onde foi convidado para uma festa em homenagem a Voltaire. Ele diz que sempre evitou falar quem era o irmão por causa das provocações que sofria...

“…Mas eu disse isso em voz alta quando fui convidado para uma recepção em Paris em homenagem a Voltaire. O velho filósofo estava sentado em sua cadeira, mimado por uma multidão de damas, alegre como um pássaro e travesso como um porco-espinho. Quando soube que vinha da Penúmbria, apostrofizou para mim:

– C’est chez vous, mon cher chevalier, qu’il y a ce fameux philosophe qui vit sur les arbres comme un singe? [É em sua terra, meu caro cavaleiro, que tem o famoso filósofo que vive sobre as árvores como um macaco?]

E eu, lisonjeado, não pude me conter ao lhe responder:

– C’est mon frère, monsieur, le baron de Rondeau. [É meu irmão, senhor, o barão de Rondó]

Voltaire ficou muito surpreso, talez pelo fato de que o irmão daquele fenômeno parecesse uma pessoa tão normal, e se pôs a fazer-me perguntas, como:

– Mais c’est pour approcher du ciel, que votre frère reste là-haut? [Mas é para se aproximar do céu, que seu irmão fica lá no alto?]

– Meu irmão afirma – respondi – que aquele que pretende observar bem a terra deve manter a necessária distância. – E Voltaire apreciou muito a resposta.

– Jadis, c’était seulement la Nature qui créait des phénomènes vivants – concluiu –; maintenant c’est la Raison. [Antes, era somente a Natureza quem criava fenômenos vivos; agora é a Razão] – E o velho sábio mergulhou de novo na conversa das suas hipócritas teístas” (pp. 157-158).

O episódio brinca com as recepções realizadas nos palácios parisienses, frequentemente frequentadas por figuras como Voltaire. Houve leituras de obras, interpretações de peças musicais e teatrais, cortejo de moças e muita comida e bebida. Mesmo nesses lugares as idéias mais recentes foram discutidas, como Voltaire faz nesta passagem, quando faz uma pequena observação sobre a criação da Razão, que substitui a Natureza. Aqui vale lembrar a ideia de que uma pessoa nasce no século XVIII (essa ideia é de Michel Foucault e está em Les mots et les choice [Palavras e Coisas]), ou seja, é nesse momento que um ser vê a si mesmo como pessoa, como um ser diferente dos outros seres, ou seja, dotado de Razão (é uma ideia que surge já naquele período do Renascimento, na Itália, mas permanece pouco desenvolvida até o Iluminismo).

Depois houve episódios da Revolução Francesa, que o barão das árvores decidiu apoiar. Ele conhece os soldados de Napoleão e depois os soldados russos, que seguiram os passos do exército ocidental derrotado pelo frio da Rússia e recuaram.

Cosimo passou por outras aventuras como combate a piratas e incêndios. Foi declarado bobo e filósofo... Também se apaixonou, mas só quem já leu o livro saberá dessa parte, pois uma das partes mais tocantes não pode faltar nessa simples resenha.

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