[#LeiaNacional] Entrevista com Raul Marques, autor de ❝Vidas Entrelaçadas❞

Primeiramente, fale-nos um pouco sobre você.

Nasci em São Paulo e moro no Interior do Estado. Sou jornalista formado e trabalhei por 12 anos como repórter. Visitei o Haiti e escrevi mais de 500 reportagens. Desde 2016, eu me dedico exclusivamente à escrita de livros, sobretudo literatura infantojuvenil, biografia, poesia e obras para empresas.

Também edito, reviso, participo de eventos literários e desenvolvo campanhas para incentivar a leitura com as crianças. Estou sempre com a família.

 

Há quanto tempo você escreve, como começou?

Comecei a escrever crônicas na época da faculdade, entre 2001 e 2002. Publiquei a coletânea de poemas O fim do silêncio em 2006. O primeiro contato com o universo literário ocorreu com histórias orais contadas pelos meus pais. No ensino fundamental, adorava visitar a biblioteca da escola. Desde então, nunca mais parei de ler.   


Você teria algum segredo de escrita? Algo que faça com que você se sinta inspirada/o antes de iniciar um novo livro?

Não diria segredo. A cada história que começo a escrever, escolho uma trilha sonora para me acompanhar. Sempre que retomo o texto, coloco para tocar as mesmas músicas, geralmente ligadas ao tema em que estou trabalhando. Isso me ajuda a manter a voz da personagem e reencontrar o tom, sem me deixar influenciar pelo que estou sentindo no dia.

Além de estudar e pesquisar, a minha antena está sempre ligada para captar ideias para novos textos, em especial na produção infantojuvenil. Pode ser uma cena de filme, conversa na rua, passagem com amigos, uma brincadeira entre as crianças.

 

Quais foram suas principais referências na literatura?

Leio muitos autores nacionais, de Norte a Sul, de romance à literatura infantojuvenil. É importante conhecer as linguagens, as maneiras como contam suas histórias, as referências.

Aline Bei, Marcelo Labes, Jeferson Tenório, Paulo Scott, Sérgio Tavares, Mailson Furtado, Jonas Ribeiro, Eraldo Miranda, Itamar Vieira Junior, Jarid Arraes, Cida Predosa e Sidnei Olivio são exemplos de autores potentes e que produzem grandes livros em suas áreas.


Qual foi seu trabalho mais desafiador até hoje em relação à escrita?

O livro infantojuvenil O caminho da escola (Aletria). É a história da menina refugiada Sara, que fugiu pelo deserto deixando tudo para trás. O livro trata de temas difíceis, como refúgio, deslocamento, morte e luta pela sobrevivência. O texto foi refeito três vezes e acabou finalista do Prêmio Barco a Vapor, um dos mais importantes do País na área infantojuvenil. O processo todo, da escrita inicial à publicação, consumiu cinco anos de trabalho.

No meu livro mais recente, Vidas entrelaçadas (Penalux), demorei 17 dias seguidos para escrever os poemas da primeira versão. Trabalhei de manhã, à tarde e à noite. Depois, foram dez meses refazendo até o texto ficar do jeito que eu queria.


Qual a parte mais difícil de se escrever um livro?

Cada etapa tem um desafio diferente, tanto faz ser começo, desenvolvimento da história ou final. Tudo importa e deve ser feito com a máxima atenção. Começo a escrever quando a história está bem resolvida na minha cabeça. Faço um roteiro como guia, mas não deixo que ele me congele. Um desafio é encontrar a voz correta para falar o que é necessário. Faço testes, escrevo, apago, reescrevo, jogo fora e tento de novo até acertar.

Qual foi seu primeiro livro, o que pensou ao iniciar sua escrita? o que te incentivou?

Em 2006, publiquei O Fim do silêncio. Eu escrevia poemas e tinha vontade de publicar. Hoje faria diferente, esperaria mais tempo. Sempre recebi apoio da minha esposa, Mariana Daher, e de toda a família para investir na carreira. Sou grato pelo apoio. Nesse primeiro livro, o meu primo Renato Bento, a quem agradeço, conseguiu um patrocinador que bancou 60% da publicação. Foi uma ajuda providencial para quem estava começando. Na sequência, tive livros editados de maneira tradicional e por outros meios.

 

Quais são suas principais referências literárias na hora de escrever?

Drummond, Manoel de Barros, Ziraldo e Machado, entre outros escritores. 

 

Você reúne notas, anotações para se inspirar durante a escrita?

Anoto as ideias em cadernos ou no bloco de notas do celular. O material oriundo da pesquisa vai para uma pasta e fica disponível para consulta. Não gosto de ficar olhando material de outros autores durante a escrita, até para não me deixar influenciar.

 

O que você faz para driblar a ausência de criatividade que bate e trava alguns momentos da escrita? Existe algo que você faça para impedir ou driblar estes momentos?

Quando tenho prazo para cumprir, é difícil aceitar as travas. É necessário se sentar na frente do computador e fazer. Sem data definida, há espaço para usar o tempo, que pode ser um grande aliado, a meu favor. Quando há dificuldade para resolver uma questão, deixo o texto descansar por alguns dias e vou fazer outras coisas que gosto, como ver filmes, ler coisas diferentes, passear, papear com os amigos. Com a cabeça arejada, as coisas tendem a funcionar melhor, para resolver o que é preciso. Escrevo e apago muita coisa.  

 

A maioria dos autores possui contatos e amigos de confiança para mostrar o progresso do seu trabalho durante o percurso da escrita. Você teria um time de “leitores beta”, para analisar seu livro antes de prosseguir com a escrita?

A Mariana é a primeira leitora. Ela sempre faz ótimas sugestões, com sua visão humanizada e ótimo radar para encontrar erros. Antes de seguir para a editora, a história passa pela mão de escritores e profissionais do mercado editorial para revisão e preparação.

 

Você prefere escrever diversas páginas por dia durante longas jornadas de escrita ou escrever um pouco todos os dias? O que funciona melhor para você?

Eu preciso escrever todos os dias, nem que seja um pequeno trecho. Normalmente, escrevo durante a manhã inteira e, quando necessário, um pouco à tarde. Se não tiver tempo para a escrita, olho rapidamente o texto. De manhã, coloco uma vírgula. À tarde, vou lá e apago.

 

Em relação ao mercado literário atual: o que você acha que deve melhorar?

As editoras têm equipes cada vez menores e, ao mesmo tempo, recebem cada vez mais textos e material para analisar. Então, há uma dificuldade aí. No geral, acredito ser necessário aumentar o número de leitores do País e facilitar o acesso ao livro. Somos um país que pode e deve ler muito mais. Temos milhares leitores sem livros.

A maioria das pessoas não consegue se manter ativas em vários projetos, como funciona para você, você escreve vários rascunhos de diferentes obras ou se mantém até o final durante o processo de um único livro?

Normalmente, não consigo focar em um único projeto. Eu escrevo ao mesmo tempo os meus livros e também obras para terceiros. A minha produção passeia por áreas como literatura infantojuvenil, biografia, poesia e, em breve, romance. Não me prendi a um estilo. Quando tenho algo a dizer, busco a melhor forma e a quem vai se destinar. Eu lancei alguns livros para crianças e quebrei esse ciclo com o livro Vidas entrelaçadas, onde as personagens estão interligadas por meio de uma camiseta. O objeto ganha um significado e utilidade diferentes para cada personagem e traça um breve perfil de figuras brasileiras.

 

O que motiva você a continuar escrevendo?

A escrita me conecta com as pessoas de diversas formas. Um livro é capaz de despertar emoções, instigar, promover a reflexão, transmitir uma mensagem importante ou simplesmente entreter. Uma frase ou ideia podem se transformar em estímulo ou acolhimento, dependendo do momento em que o leitor se encontra. Tudo isso sem contarmos com o essencial papel dos livros na educação e na formação de cidadãos com pensamento crítico.

 

Que conselho você daria para quem está começando agora?

Todo escritor começa como leitor. Assim, é importante conhecer o estilo em que planeja investir, estudar e escrever bastante para descobrir a própria voz. Hoje todo autor precisa trabalhar na divulgação dos livros. Não tem como evitar.

 

Para você, qual o maior desafio para um autor/a no cenário atual?

Três desafios: escrever grandes histórias, conseguir boas editoras para publicar e fazer o livro chegar ao leitor.

 

Você tem algum hábito ou rotina de escrita?

Além da música, escrevo um pouco a cada dia. Tenho a mania de sempre reler as últimas páginas antes de retomar. Quando o texto é pequeno, repasso todo o texto. É difícil quando estou envolvido na escrita, com uma forma bacana de contar a história, mas tenho que parar para fazer outras coisas. Aquilo não sai da cabeça e não tem jeito: encontro um tempo o mais rápido possível para terminar.

 

Como você enxerga o cenário literário atual e a recepção dos leitores da atualidade em relação aos novos autores?

O mercado editorial vive a expectativa do crescimento da economia e da retomada do setor. O novo governo recriou o Ministério da Cultura e planeja investir em Educação. No Brasil, há muito mercado e leitores para serem conquistados.

 

Se pudesse indicar quatro obras literárias que te inspiraram, quais seriam?

O estrangeiro (Albert Camus), O livro das ignorãças (Manoel de Barros), O carteiro e o poeta (Antonio Skármeta) e Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis).

 

Que conselho você daria para quem está começando a escrita do primeiro livro?

Leia, pesquise, viva, pense e encontre a forma de dizer o que quer. O leitor quer ler grandes histórias.

 

O que esperar para o ano de 2023 em relação à sua escrita?

Vou lançar livros infantis, um em parceria com a Mariana pela Miraculus Editora. Estou trabalhando na divulgação das obras Vidas entrelaçadas (disponível na Amazon nos formatos físicos e ebook) e As histórias (Sowilo/público infantil). Também estou preparando um romance.

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