[Primeiras Impressões] As Faces do vazio, de Ellen Costa

Falar deste livro evoca um sentimento de responsabilidade colossal, pois ele fala do vazio. O vazio é a definição da ausência, da falta, da incapacidade de preenchimento ou do abandono persistente de um ser, local ou sentimento. Faces do vazio é um livro carregado de dor. O enredo é trabalhado como forma de diário, de desabafo, quase como uma confissão ou tentativa de botar pra fora todo aquele vazio que estava tomando conta do espaço deixado por outro alguém. 

Ellen, a autora, descreve com sutileza o poder do luto e da superação. Seus escritos falam de sua amizade com seu primo, que, aos dezesseis anos descobriu estar com leucemia. Até aquele momento, era apenas uma doença, não se tinha a dimensão do que era o câncer e do luto, sobretudo do luto, apenas pela ótica da experiência de sua mãe, que, aos quinze anos perdeu o pai (avô de Ellen). A autora descreve uma proximidade maculada com seu primo, eram realmente muito próximos, ela descrevia o quanto ele tinha força de vontade de viver e o quanto acreditava na cura, mas também descreve o quanto sofreu quando teve de lidar com a perda do primo, no auge dos seus dezenove anos.

[...] O que senti naquele dia foi vazio. Um vazio tão puro e oco que passou a ser desesperador e sufocante e louco! Perdê-lo foi louco! (colchetes meus)

Ellen, trouxe consigo o poder de causar em nós desconforto, tristeza e de saudade. Em todas as páginas ela evoca seus sentimentos de abandono e o processo ao qual teve de passar para aceitar a verdade por trás de sua perda. Ela ficou confusa, viveu e reviveu momentos e lembranças, esqueceu-se de locais e detalhes (acredito eu que devido ao trauma causado pela perda), este momento, caracteriza-se por meio de sua narrativa sobre um momento de sua vida na universidade, onde ela, por um momento, pensou que todo ocorrido poderia não ter acontecido, porém:

[..]e comecei a criar uma realidade em que tudo não passava de um grande e terrível pesadelo. (colchetes meus)

Então, eu voltei para minha cidade. E, como uma avalan- che, tudo voltou. 

Tudo isso apenas na introdução do livro. Esta miscelânea é um misto de poemas, confissões, textos e desabados que não seguem uma norma de escrita. Nota-se que a autora escreveu em momentos, em seu tempo, durante a diluição dos fatos e o retorno das memórias, nota-se que todo processo de escrita foi doloroso, acredito eu que, a publicação foi uma forma de encarar os fatos, criando assim, uma ultima homenagem ao seu primo.

Os poemas descrevem os momentos passados por Ellen durante o duro período dos fatos. 

Em 'sonhos' primeiro poema de abertura do livro, a autora nos apresenta todo sentimento de saudade que veio a tona por meio de um sonho. Nota-se o desejo de ter o primo próximo para viver os momentos que lhe foram privados.

Queria você aqui.

Queria poder te abraçar.

Queria poder ouvir sua voz.

Queria ouvir seus comentários sarcásticos. 

Queria que você conhecesse onde eu moro.

Desabafo é um texto que narra a forma com a qual ela lidou com a saudade. Antes de ir para aula, o sentimento de estar com o primo e os momentos em que ela teve ser forte, de prosseguir e de toda ausência causada pela partida.

Estranho que eu tô cercada de pessoas, mas sozinha.

Desabafo II, notamos que a autora expressa que a dor é parte do processo de se habituar ao fato de que a perda existe, sobretudo, porque a aceitação leva tempo.

Queria dizer que ainda não tenho um vere- dito sobre como me sinto com esse novo método de lidar com o luto.

O tempo passou, é um poema que descreve sobre o processo e como ela se sente em meio aos sentimentos que se encontram confusos. O tempo passa, os momentos não são mais os mesmos, pois não são mais partilhados com a experiência de se ter o primo para vivê-las consigo.

O tempo passou.

As brincadeiras acabaram.

O riso não é o mesmo.

As distrações nunca são suficientes.

Seis meses depois -  é a diluição do tempo e dos momentos, notamos a dor da perda constante e todo processo envolvendo a saudade.

Seis meses depois e

eu continuo esperando uma mensagem.

Continuo pensando em te ligar.

Continuo esperando sua cobrança pela blusa que eu peguei.

O livro é dedicado à todos que perderam alguém, é um livro cheio de dor, mas é um confessionário necessário. Ellen nos traz em suas páginas seus relatos de sofrimento e todo processo do luto, mas também nos entrega um carrossel de emoções que nos possibilita entender a dor de perto, e a acostumar-se a viver, pois elas podem - e vão - ocorrer com todos.

Um livro digno de um roteiro de cinema, publicado pela Editora Alarde.

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