[RESENHA #518] Os bestializados, de José Murilo /cap 4


O livro é apresentado pelo autor com uma clareza de escrita tornando-o de fácil entendimento. A proposta do autor é contextualizar o leitor com os acontecimentos que anteriores a Revolta da Vacina, embora ele mencione, em vários trechos, que as fontes pesquisadas exigem cuidados especiais, sendo eles os jornais e revistas da época, depoimentos de testemunha ocular e breve relatórios policiais e dos poucos processos criminais.

José Murilo de Carvalho também descreve comparativos da Revoltas populares no Brasil e as Revoltas ocorridas na França, como forma de esclarecer ao leitor as diferenças com relação principalmente à violência.

É perceptível que o objetivo principal do mesmo é mostrar a participação popular e as formas como se deu no período e para isso achou fundamental mostrar o cotidiano na riqueza de detalhes, que realmente te remete ao cenário. Descreve o clima na cidade do Rio de Janeiro antes da Revolta da Vacina que era de insatisfação, principalmente no setor econômico. Rodrigues Alves assume um governo, no qual seu antecessor, Campos Sales, saia sob imensa vaia, pois tinha sido de recessão econômica produzida por uma politica de combate à inflação, sendo assim Rodrigues Alves enveredou por programa intensivo de obras públicas, financiado por recursos externos, que conseguiu dar inicio à recuperação econômica. De imediato promoveu as obras de Saneamento e de reforma urbana da cidade e assim, descreve que o mesmo, “conseguiu poderes quase ditatoriais” para o engenheiro Pereira Passos, nomeado prefeito e para o medico Oswaldo Cruz, nomeado diretor do Serviço de Saúde Pública, com isso a estrutura da cidade passa por transformações, o “bota-abaixo” como José Murilo Carvalho conta em sua comparação que Haussmann fez em Paris, que casas e vários prédios da cidade foram demolidos, bairros inteiros aterrados para dar lugar a praças e para o alargamento de ruas e avenidas, o que facilitaria o trânsito.

Por lado da saúde publica se organiza em três etapas, sendo a primeira no combate a febre amarela, no combate do mosquito, na segunda no combate da peste bubônica, cujo combate exigia a exterminação de ratos e pulgas e a limpeza e desinfecção de ruas e casas, sendo os alvos as áreas mais pobres e de maior densidade demográfica. E para que isso fosse cumprido às brigadas de saúde eram acompanhadas por soldados da policia. Isso tudo já desagradava ao povo, pois muitos tinham que reformar ou abandonar suas casas e as terceira etapa de combate a epidemias, foi à vacinação obrigatória contra a Varíola, no qual causou o desagravo geral, pois a obrigatoriedade da vacina limitava e infligia o direito dos cidadãos. Isso denunciava o domínio do país das oligarquias na qual Rodrigues Alves se incluía, pois para se obter a Modernidade, tratavam e impunham uma vacina como se fossem nas fazendas de gado, mas vacinar pessoas não é a mesma coisa que vacinar gado, pessoas se revoltam, e quando implantaram leis não levaram em conta os fatores psicológicos, sociais e culturais, a vida do cidadão sendo vigiada e controlada, uma vez que atestado da vacina era requerida para todos os atos da vida civil. A vacinação, porem foi o estopim da Revolta e entrou para historia, mas ela foi muito mais que isso.

A Revolta da Vacina se deu, segundo o autor, por uma serie de fatores e uma das maiores características foram as atuações da imprensa da época, em especial caricaturas, pois atingia a população analfabeta. A imprensa propagava ideias, através de boatos, contra a lei e a politica da vacinação, dizendo que o poder público não podia invadir as casas da população e impor a vacina uma vez que a mesma transmitia doença. O autor explica as articulações contra a lei da vacina dos operários, uma vez que boatos contra a honra dos chefes de família foram espalhados, “por haver aí penetrado desconhecido amparado pela proclamação da lei da violação do lar e da brutalização aos corpos de suas filhas e de sua esposa”. Foi quando tudo começou. No dia 10 de novembro de 1904 uma pequena manifestação de estudantes pregava a resistência à vacina. O líder estudantil foi preso a assim iniciou-se a revolta violenta. José Murilo Carvalho, narra detalhadamente os diversos conflitos da revolta, a tomada das ruas do Rio de Janeiro, com ataque e queima de bondes, tomadas de fabricas, delegacias, bem como a sua cada vez mais violenta repressão, inclusive o decreto de Estado de Sítio e a vinda de reforços militares de outros Estados. Nessa parte do texto ele mostra a dificuldade dos historiadores brasileiros em encontrar fontes, pois diferente das revoltas na França, a maioria dos presos não foram processados, só os lideres, muitas vezes elementos da elite, sendo assim ficou difícil à identificação e a ideologia desses revoltosos. As fontes exigiam cuidado especial, na ausência de processo, restam os jornais e revistas da época, esses emitiam opiniões diversas sobre os revoltosos. Mas mostrou, através de tabelas, o perfil dos presos com os boletins dos chefes de policia que no seu entender, por terem uma precisão numérica eram mais “fidedignas”, visto isso aponta que muitos dos presos e mortos eram operários, comerciantes, estudantes, militares, isso destaca que os motivos morais da Revolta, tantas da elite como às classes populares se incomodaram com a ação invasiva do governo, os primeiros lutavam pelos seus direitos sob a doutrina do liberalismo, os mais simples lutavam achar uma violação a privacidade do lar e a honra.

Existiu uma presença significativa de operários entre as vitimas, apesar das divergências internas dentro do movimento operário e do conflito de interesses ente os operários do Centro das Classes Operárias, mais ligado ao governo, e os operários de tendência mais anarquista, eles permaneceram mais ou menos coesos durante a revolta, e José Murilo de Carvalho defende que foi o Centro o grande responsável por traduzir o movimento de oposição dos jornais para as ruas.

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