[RESENHA #529] Tempo aberto, vários autores



Tempo aberto é uma obra de ficção comemorativa publicada pelo Grupo Editorial Record em celebração aos oitenta anos de existência do conglomerado editorial, que atualmente abarca onze selos que publicam os mais variados gêneros literários. O titulo é uma alusão ao tempo que se encontra em percurso contínuo, assim como o compromisso do Grupo e de seus editores com as publicações e o compromisso com a qualidade do material publicado ao longo dos anos.

80 anos de existência em 8 grandes contos que narram as oito décadas de  vida brasileira em períodos históricos que abarcam de 1942 à 2022. As narrativas aqui distribuídas se relacionam com diferentes acontecimentos e críticas, como: o papel da mulher na sociedade, a violência das ruas, o alcance do regime militar durante o período da repressão, a redemocratização, dentre outros. Para tal, reuniu-se nesta edição oito autores inesquecíveis: Nélida Piñon; Alberto Mussa; Francisco Azevedo; Carla Madeira; Nei Lopes; Antônio Torres; Cristovão Tezza e Claudia Lage.

Vale ressaltar que as obras aqui apresentadas são carregadas de mensagens e simbolismos característicos do tempo ao qual foi-se proposto representar, de forma tal que deve-se atentar-se em se obter uma leitura além das entrelinhas, percorrendo as nuances descritivas que delineam caminhos distintos de narrativa, foco e acontecimento.

Fazem parte desta edição comemorativa os contos:

Aberto Mussa - Encruzilhada na ladeira do Timbau (1942-1952)

A violência nas cidades: Este conto mantem sua essência original dos anos 40 e fala-nos sobre uma ficção que ocorre durante a ocupação do morro da formiga. A narrativa aborda a vida de Tião Saci, um homem que decide se mudar para o morro da formiga e morar com Déo, porém, seu real interesse estava nos trabalhos espirituais e na entidade que por lá habitava na figura de um rapaz conhecido por Lacraia.

Nélida Piñon - I love my Husband (1952-1962)

O papel da mulher na sociedade: Uma história narrada em primeira pessoa por uma mulher que fala-nos acerca de seu convívio com seu marido e seus desdobramentos, suas descrições sobre o cotidiano e o tratamento que levara de seu marido e a visão da sociedade sobre o casamento são arcaicas, antigas e características do século 18, apesar da história dar todos os indícios de se tratar de algo ambientado entre o século dezenove e vinte.

Francisco Azevedo - Em 1969, um concurso literário e uma viagem de contrastes (1962-1972)

Oposição da ditadura x contracultura: A história narra o percurso de Frájara, um entusiasta da escrita que vence um concurso literário e uma viagem para terras estrangeiras durante o período da ditadura militar no Brasil, durante o processo de contracultura em que se encontravam Brasil x EUA. Chumbo e censura, uma história sobre o impacto da escrita e das experiências durante um período de retrocesso cultural.

Antônio Torres - Atrás da cerca (1972-1982)

O alcance do regime militar no sertão: Uma narrativa sobre o impacto do regime militar do sertão e a instauração da censura e a preocupação de um morador em relação à como proceder: não posso contar o que não vi, não posso falar o que não vi.

Carla Madeira - Corte seco (1982-1992)

O despertar da juventude durante o período de redemocratização: Narrado em primeira pessoa pela personagem Elizabete, a história fala-nos do processo de confiança de pais e filha durante o desespero pelo sumiço de um blazer e a quebra de confiança.

Nei Lopes - Manchete de Jornal (1992-2002)

A força da cultura popular às vésperas da revolução digital: Narrativa que começa com um possível fato curioso: um homem de nome Alvimar da Silva, recém falecido, havia sido enterrado vivo. Este foi o estopim e surgimento de uma série de manchetes investigativas regradas à boas doses de sensacionalismo.

Claudia Lage - um delírio por moira (2002-2012)

As pressões cotidianas no mundo contemporâneo: As pressões de uma garota para realização de coisas básicas com um pano de fundo fluído. Aluguel, energia, comida, água e despesas básicas e a pressão para ser o melhor a cada dia para sobrevivência.

Cristovão Tezza - O herói da sombra (2012-2022)

A história da venda de um carro antigo e problemático e os desdobramentos de um bem feitor.

A obra em si é uma construção significativa em contribuição literária, a decisão da editora em republicar estes contos traz a tona a importância do debate e da literatura como instrumento de fomento principal da educação e dos movimentos ligados à cultura. 80 anos de história do Brasil e do grupo, certamente um número significativo e único.

Indicado para todo leitor de bons contos.

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