[RESENHA #533] A vida dos espectros, de Franklin Alves Dassie



DASSIE, Franklin Alves. A vida dos espectro / Franklin Alves Dassie. - São Paulo: Circulo de poemas, 2022.

Antes de mais nada, vale ressaltar que esta obra compõe o catálogo do projeto círculo de poemas, uma parceria entre a Editora Fósforo e Luna Parque.

O livro é uma escrita poética do professor niteroiense Franklin Alves Dassie, também autor de grandes títulos como mamíferos (2016); Jlg (2019); grande hospital (2021), dentre outros. A narrativa do autor percorre pela transcrição dos possíveis acontecimentos que marcaram a pintura de Charles Baudelaire (poeta, 1948) e Gustave Courbet (pintor).

A obra é uma reflexão acerca da vida dos espectros, em suma, a vida de todos os que passaram por esta terra algum dia, e que agora, não pertencem mais ao mundo material. O poema de abertura, homônimo ao título, fala-nos que esta é a vida dos espectros, esta é a vida à falar dos espectros, esta é a fala dos espectros. Esta não, outra. Em síntese, somos direcionados ao pensamento de que falar sobre passado, seja século, seja dia, implica em falar dos espectros, e falar que esta é a vida dos espectros, é antecipar o mundo metafísico no material. A vida dos espectros é, senão, o resumo da vida e do plano físico.

Já o autorretrato ou o homem desesperado, apresenta-nos o retrato de dois homens conversando sobre a vida e as problemáticas que à compõe. Dois grandes homens. Um era pintor, o outro, escritor, ambos repletos de promessas, e elas ecoaram pela vida até ecoarem por outras páginas. A partir daqui, o espectro pintor e o espectro escritor passam a delinear outras narrativas dentro desta obra. 

Carlos, presente no poema 09041821, é escritor, perturbado, com uma visão de mundo diferente. Ele ouvia o que ninguém poderia ouvir, e isso o perturbava incessantemente, talvez seja por isso que ele não conseguira realizar o retrato do espectro-pintor. Já Gustavo, presente no poema 10061819, era pintor, e só conseguira pintar se imaginando no caos completo, com uma arma em sua cabeça, era assim que ele pintava, era o que o fazia se sentir vivo, e foi assim que conseguira pintar o espectro-escritor.

Uma imagem é a fala dos espectros - eles falam do passado para o presente que não escuta e que espera um futuro feliz ou dilacerante. (-- in retrato de Baudelaire c.1848, p.10)

Mas, o que são os espectros?

Um espectro é uma imagem. Uma imagem é algo aparentemente simples. Um espectro, portanto, é algo aparentemente simples. (--in mas já?, p.15)

logo, o autor completa o poema com o que esperávamos ser: 

não é fácil saber que em breve seremos espectros e demoraremos séculos - se o mundo não acabar antes - até alguém ser nosso cavalo.

Em suma, Dassie nos entrega um dossiê do resumo da vida: passagem. Uma vida cheia de promessas e caminhos delineados por Carlos & Gustavo. Duas pinturas emblemáticas, dois talentos distintos, duas formas de atuar e ver a vida, e duas finalizações opostas, cada qual existiu à sua maneira, a vida dos espectros é, se não, ser lembrado por todos aqueles que ainda não se tornaram espectros.

A fala até alguém ser nosso cavalo pode ser interpretada de dois sentidos. O termo cavalo, é usado para designar um estado de transe entre uma pessoa e uma entidade, ou espectro, nas religiões de matriz africana, poderemos inferir que o autor fala-nos sobre o processo de falar do passado e ser domado por ele de alguma forma como reflexo no mundo material ao físico, ou, poderemos entender que falar alguém de cavalo é o mesmo que caminhar neste mundo sob as costas de alguém: sob as lembranças que ficaram e sob os ensinamentos que perpetuaram no campo metafísico.

Dassie, um escritor nato de descrições precisas da realidade.

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