[RESENHA #556] A relíquia, de Eça de Queiroz

 


A Relíquia é um romance realista escrito pelo português Eça de Queiroz e publicado em 1887. A obra é profundamente sarcástica e protagonizada por Teodorico Raposo, um sujeito que decide escrever um relato memorialista para contar as experiências que viveu.

A história é narrada em primeira pessoa e associa à narrativa de viagem um olhar bem-humorado sobre a condição de adaptação humana, em seus interesses de posse e em suas ilusões sociais e afetivas, por meio de negociações íntimas, por vezes conflitivas, entre o sacrifício e a recompensa.

Eça de Queiroz nasceu em 25 de novembro de 1845, em Póvoa do Varzim, Portugal. Seus pais não eram casados, o que, na época, era algo escandaloso. Por isso, foi batizado em outra cidade — Vila do Conde. Seu pai era brasileiro e sua mãe, portuguesa.

Além de A Relíquia, Eça de Queiroz escreveu outras obras notáveis como O Crime do Padre Amaro e Os Maias .


A Relíquia, é uma obra-prima cómica que merece ser redescoberta. (...) um romance de um génio cómico absoluto, uma invenção que provoca o riso estrondoso.

O relato que Teodorico faz da sua busca sublimemente absurda na Terra Santa é ao mesmo tempo uma sátira soberba e uma viagem espiritual perturbadora que transcende tanto as suas expectativas como as nossas. Quem poderia esperar o tocante retrato de Cristo que se impõe na visão de Teodorico?

Teodorico quer, desesperadamente, ser o beneficiário do testamento da rica tia (titi) e ela é uma fanática católica pouco racional. Teodorico é um desavergonhado: delirantemente hipócrita e caçador obsessivo de mulheres, arquétipo do falso devoto, o órfão sempre à espreita de uma oportunidade para subir na vida. Ele é uma invenção deliciosamente cómica, não tanto pelo estilo, mas pela obstinação, o que nos leva a admirá-lo pela sua vitalidade constante. Não consigo resistir-lhe: de cada vez que finge ter devoção para agradar aos fetiches da tia, recompensa-se com mais uma puta.
A titi é um monstro sublime, cuja única queixa de Deus é ter cometido o erro de criar dois sexos. Teodorico vive sobre o seu reinado de terror, porque um único erro o deixaria sem herança.

Teodorico Raposão é um debochado mulherengo que usa a beatice com o único intuito de esmifrar a fortuna à Titi: a severa titi, a esverdeada titi, a fria, sovina, castradora, pudica titi, que não morre nem abre os cordões à bolsa verde; invólucro cobiçado e permissório de todas as ambições de Teodorico. Tarefa árdua, para mais Teodorico tem um rival de peso: Jesus Cristo.
Perante a concorrência, Teodorico parte para Jerusalém numa viagem de peregrinação. De lá irá trazer à titi a mais sagrada de todas as relíquias, irá amaciar a velha, deitar mão à fortuna e viver em plenitude a devassidão apetecida.

Se na primeira parte impera o humor e a caricatura, após a viagem e chegada a Jerusalém, a narrativa entra num plano fantasioso: um sonho, um regresso ao passado e Teodorico vê-se a acompanhar o julgamento, o julgamento, o calvário e a crucificação de Jesus Cristo.
Aqui a leitura quer-se lenta; a habilidade descritiva transporta-nos para a cidade, para as praças, para os templos, desperta os sentidos; envolve-nos em cores e aromas, entramos nos ritos quotidianos e na vivência da história que fundou o cristianismo. O regresso a casa, à saudosa Lisboa pauta-se por uma sucessão de situações caricatas e culmina com o suprassumo da ironia.

De todas as obras que li do Eça, foi nesta que encontrei a crítica mais evidente e parodiada ao catolicismo exacerbado e à hipocrisia social.
Apesar dessa paródia, esta é uma obra madura e filosófica que afirma Eça como grande pensador e grande escritor. Homem de vasta cultura, dono de um forte admirável do qual tirava partido como poucos.

É bem possível que Eça tenha sido vilipendiado pela Igreja, quer pela ridicularização de algumas práticas (pouco) católicas envoltas em cinismo e oportunismo, quer pelo modo como desmistificou a autoridade de Cristo e lançou dúvidas perante os princípios fundadores das crenças religiosas. 

Em resumo, A Relíquia é uma obra-prima que retrata com habilidade a sociedade portuguesa do século XIX e é uma leitura recomendada para aqueles interessados em literatura clássica.


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