[RESENHA #564] As origens do mal, de Georges Minois

APRESENTAÇÃO

Quem é o responsável pelas infelicidades que esmagam a humanidade? Depois de muitas hesitações, os primeiros Pais da Igreja buscaram a explicação no velho mito bíblico de Adão e Eva. Os bispos do concílio de Trento fizeram dele um dogma, afirmando que a falta do primeiro homem corrompeu a natureza humana. Desde então, a doutrina do pecado original moldou a moral cristã e, mais amplamente, a imagem do homem. Construída com cuidado e erudição, esta obra é instrutiva e instigante, feita para pessoas curiosas, crentes ou não, sobretudo numa época em que a distinção entre o bem e o mal ― e sobretudo sua origem ― se articula com dificuldade.

RESENHA

George Minois é um professor francês de história com trabalhos com ênfase em tópicos religiosos, seus livros mais conhecidos ao redor do globo são: história do riso e do escárnio, as origens do mal, história do ateísmo e história do futuro. Nesta obra, o autor desdobra-se sobre as perguntas mais difundidas dentre os tempos: de onde vem o mal e o sofrimento existente? Quem é o responsável pelas infelicidades que esmagam a humanidade? dentre outras questões estudadas pelas mais variadas áreas.

Recorrendo a um amplo universo de referências de filosofia à textos bíblicos, do darwinismo à bioética, Minois analisa aqui as marcas do pecado original sobre a moral cristã e a forma como, mesmo nos dias de hoje, esse tema continua a suscitar debate. Livre arbítrio, pretensão de independência e autossuperação: embora talvez não seja evidente a princípio, não são tão distantes dos motivos que justificariam o cometimento do pecado original das ambições dos homens da ciência.

A obra é uma proposta desafiadora e bastante respaldada, o autor busca por meio de diversos campos explicitar de forma clara e concisa por meio de uma linguagem clara e acessível a existência do mal e do sofrimento humano. Se Deus é bom o tempo todo e tudo o que faz é perfeito, porque temos de pagar pelo pecado primário? A história é conhecida, o desfecho também, mas será que os desdobramentos advindos da criação divina também? Um estudo profundo que busca apresentar uma base sólida de argumentação capaz que trazer a tona à luz do conhecimento por meio do estudo. 

Os primeiros pais da igreja buscaram explicar o mal e o sofrimento humano por meio da análise do texto de Adão e Eva, na bíblia cristã, o comportamento pecaminoso no Éden, moldou toda humanidade, bem como sua noção de certo, errado e do poder de escolhas do homem. Segundo estes estudiosos primários, a culpa decorreu de um único homem por meio do pecado original de Adão, moldando a noção de ética cristã e moral humana.  A partir deste ponto, introduziu-se toda proibição e dogmas impostos pela religião, como a mulher como figura submissa ao homem e os pecados da sexualidade e os agouros advindos destes comportamentos, o que ocasionou em uma centena de intermináveis estudos que alcançaram o Iluminismo e ascenderam aos dias atuais.

A falha inicial de Adão provocou um efeito cascata moral, os homens sentem-se culpados pelo pecado original, mas livram-se da culpa ressentindo-se do futuro e dos efeitos da escolha de outro, o que ascende nos estudos das áreas religiosas e educacionais a alternativa de explicar os efeitos no cotidiano e no âmbito social e moral da sociedade. Mas a ideia de culpa do pecado transferiu-se à figura do diabo, tirando sobre o homem o peso da responsabilidade de sua própria escolha, não sendo mais responsável pelo ocorrido de outrora, mas responsável pelos efeitos futuros das escolhas, o que é, sempre, complicado, levando em consideração que todos os homens esbarram diariamente nos limites impostos pela religião, sobretudo, se analisarmos fortemente os escritos bíblicos advindos do primeiro testamento da bíblia cristã.

O livro conta com a seguinte divisão de tópicos: 

1. De quem é a falta?

2. O processo de Adão

3. Teologia e sociedade

4. A  queda: pomo de discórdia teológico

5. O pecado original

6. Adão sob o fogo das luzes

7. Adão, Darwin e Hegel

8. Os avatares do pecado original

9. Do Adão bíblico ao Adão eugênico 

Cada tópico possui uma particularidade única, o autor unifica arestas de diferentes áreas para explicitação do conteúdo prático explicativo, expondo com clareza e citações de obras ao longo do enredo conteúdos que solidificam os argumentos em linguagem clara e assertiva. O tópico um aborda a falta, a falta de noção do pecado, da ação e de vigilia celeste, o segundo, os processos advindos do processo acusatório de um responsável pelo pecado primário, o terceiro os reflexos na idade média, filosofia e nas demais áreas do conhecimento, o quarto o concílio de trento e a revolta humanista, o quinto à análise do pecado original, a sexta, o estudo do pecado transporido, a sétima, uma análise sob a luz de Darwin e Hegel, dentre os demais tópicos.

Até o final do quarto século, os cristãos tinham visões conflitantes sobre o pecado de Adão e Eva e suas consequências (o crime é frequentemente descrito como obra de Deus). Agostinho de Hipona, um bispo africano apaixonado por demônios, é o criador da expressão "pecado original" e o próprio criador da demonologia literal. Ele organizou concílios em Cartago, que levaram o papa à condenação do pecado original em 418. Desde então, o assunto foi resolvido dentro da Igreja. Simplificando, os teólogos gastarão muita energia para entender, explicar e justificar uma ideia que ao longo dos séculos será muito misteriosa e desconcertante: Deus, o Todo-Poderoso.

No século 16, a interpretação da história da queda tornou-se a "maçã" da controvérsia entre católicos e protestantes. Então a Igreja Romana procurou de alguma forma acabar com o julgamento de Adão. O Concílio de Trento também considerou o pecado original um dogma. Portanto, qualquer católico que rejeita o caráter histórico da história bíblica é um herege e amaldiçoado. Outro ensinamento do mesmo conselho: todas as pessoas - exceto a mãe de Cristo, a "Imaculada Reencarnação" - herdam o pecado original e devem ser batizadas para removê-lo. Crianças não batizadas não podem ir para o céu. Sua alma vai para um lugar imaginado por Tomás de Aquino no século XIII: o limbo.

G. Minois mostra que, ao longo da história do cristianismo, os escritores pensaram em interpretar a história bíblica de forma alegórica: por exemplo, Pelágio no século IV ou Lamenais no século XIX. Essas ideias foram sistematicamente rejeitadas pelas autoridades católicas e pelos fundamentalistas protestantes. A promulgação desses pontos de vista resultou na expulsão de seus autores da Igreja e de outras disciplinas (começando com Pelágio, que foi expulso de Roma e despojado).


A obra de Minois percorre toda a história da cultura cristã. De fato, a doutrina do pecado original moldou a imagem humana do Ocidente. Ele cometeu o pecado da luxúria (em muitas teologias, Adão e Eva pecaram contra a carne), mas também desobedeceu até mesmo ao conhecimento científico. Justifica a ordem social (o ser humano é fundamentalmente mau, a violência é necessária para manter a ordem) e o desrespeito às mulheres - Paulo de Tarso (São Paulo) diz "não" Não foi Adão que foi tentado, mas a mulher que, sendo tentada, tornou-se culpado de transgressão". O pecado original não ocupava apenas os teólogos, mas muitos filósofos também apontavam: Pascal, Leibniz, Kant, Hegel... No século XVIII, tornou-se o objetivo dos racionalistas. No século 19, Adão seria "morto" pelo darwinismo. Os cristãos que aceitam a evolução, a preservação histórica do Adão, terão que se engajar em uma síntese mental que levará ao ensinamento atual da Igreja: o corpo é "tirado de uma matéria viva e pré-existente", mas cada "alma" foi criada por Deus.

Em síntese, devo declarar que esta é uma obra esclarecedora em diversos pontos e sua narrativa é lúdica e clara ao que se propõe: um estudo amplo da origem do mal por meio de análises nos mais variados campos. Uma obra dedicada à amantes de história, teólogos e filósofos.

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