[RESENHA #568] O poder do ultrajovem, de Carlos Drummond de Andrade

APRESENTAÇÃO

O poder ultrajovem reúne textos publicados por Carlos Drummond de Andrade na imprensa entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Trata-se de um poderoso conjunto de prosa e verso - sempre pendendo para os domínios da crônica, gênero que o grande escritor mineiro praticou como poucos -, em que o olhar maduro e algo desencantado (mas com muita ironia) do autor se debruça sobre os mais diversos aspectos da vida e da sociedade daquela época.

Temas como a amizade, a história do Brasil, a vida no Rio de Janeiro, as artes, o Carnaval, o futebol e até mesmo a ecologia aparecem no estilo leve e sempre afiado de Drummond. As crianças e os jovens ocupam um espaço à parte no livro, pois são agudos os apontamentos a respeito das transformações pelas quais meninos e meninas atravessavam naqueles tempos conturbados em que conviviam, ao menos no Brasil, os hippies e um regime antidemocrático instaurado em 1964 (tendo ficado ainda mais duro e violento justamente na passagem para os anos 1970), a pobreza e a exuberância econômica e cultural da Zona Sul do Rio de Janeiro.


RESENHA 

Pequeno livro de Carlos Drummond de Andrade, "O Poder do Ultrajovem" é uma obra que se destaca pelo seu estilo irreverente e humorístico. Publicado originalmente em 1986, o livro apresenta uma série de reflexões sobre a juventude e a cultura popular.

Os textos de “O poder ultrajovem” resistem à passagem do tempo, mostrando as diversas facetas de um país pelo olhar generoso e perspicaz deste gênio chamado Carlos Drummond de Andrade.

Ao longo das páginas deste livro curto mas intenso, encontramos vários ensaios breves que exploram temas como música pop, televisão e comportamento jovem. O autor utiliza sua habilidade literária para analisar criticamente esses fenômenos culturais contemporâneos com um olhar irônico e bem-humorado.

Embora seja um trabalho mais leve em comparação com outros livros clássicos do autor como "Sentimento do Mundo" ou "A Rosa do Povo", "O Poder do Ultrajovem" ainda mantém o toque poético característico da escrita de Drummond. Através dos seus textos descontraídos ele nos convida não apenas à reflexão crítica sobre os valores dominantes na sociedade moderna mas também ao riso franco diante das situações absurdas impostas aos ultrajovens (termo cunhado por ele próprio).

No poema gato na palmeira (p. 246):

"Gato na Palmeira" é um poema enigmático e intrigante de Carlos Drummond de Andrade. O poeta utiliza elementos naturais, como a palmeira e o gato, para criar uma atmosfera misteriosa que captura a atenção do leitor.

O título sugere uma imagem comum da vida cotidiana - um gato subindo em uma árvore -, mas o texto traz muito mais do que isso. A linguagem é repleta de metáforas e simbolismos que dão ao poema camadas adicionais de significado.

A figura do gato é associada à ideia de liberdade, habilidade e agilidade. Já a palmeira pode ser vista como um símbolo da resistência às intempéries da vida. Esses dois elementos juntos criam uma sensação de harmonia entre os opostos, onde a natureza se equilibra por si só.

No entanto, essa harmonia também pode ser interpretada como frágil ou ilusória - afinal, o gato está em cima da palmeira e não sabemos se ele conseguirá descer sem causar danos ou se arriscará sua própria vida pela busca incansável pela liberdade.

Drummond explora as tensões existentes entre esses conceitos aparentemente contraditórios para mostrar a complexidade das relações humanas com o mundo natural. Ele nos leva além da superfície das coisas familiares para revelar verdades ocultas sobre nós mesmos e nosso papel no universo.

Em resumo,"Gato na Palmeira" é um exemplo notável do talento literário excepcionalmente versátil de Carlos Drummond de Andrade. Ele consegue transmitir uma profunda reflexão sobre a vida, natureza e liberdade por meio de um poema aparentemente simples.

...Já no poema salvar passarinho (p.198):

"Salvar Passarinho" é um poema curto e emotivo de Carlos Drummond de Andrade que aborda a questão da crueldade humana em relação aos animais. O poeta utiliza uma linguagem simples, mas poderosa, para transmitir sua mensagem.

O tema central do poema é a necessidade de proteger os pássaros contra o perigo representado pelas pessoas que os caçam ou prendem em gaiolas. A imagem do passarinho indefeso contrasta com a força brutal dos seres humanos que o perseguem por diversão ou lucro.

Drummond usa várias figuras retóricas para enfatizar a ideia principal do poema. Por exemplo, ele usa repetições ("salva, salva") para criar um senso de urgência e apelo emocional ao leitor. Ele também cria uma atmosfera triste e opressiva através das palavras escolhidas - "choro", "soluço", "grito inútil".

No entanto, mesmo diante dessa situação desesperadora, há esperança no final do poema: "passarinho livre / recebe amor". Essas palavras sugerem que ainda há espaço para mudança positiva se as pessoas agirem com compaixão e responsabilidade em relação aos animais.

Em resumo,"Salvar Passarinho" é um chamado à consciência ambiental e defesa dos direitos dos animais. É uma reflexão sobre como nossas atitudes podem afetar negativamente o mundo natural ao nosso redor e nos incentivar a tomar medidas proativas para protegê-lo. Drummond mostra mais uma vez sua habilidade literária excepcionalmente sensível na comunicação desses temas complexos em um poema simples e comovente.

Em suma, este é um livro divertido e inteligente que oferece alguns insights interessantes sobre as relações entre juventude e cultura pop. É uma leitura ideal para quem procura algo mais leve na obra desse grande poeta brasileiro - sem perder a profundidade crítica tão presente em seus trabalhos literários mais conhecidos pela critica especializada.

O AUTOR

Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. "No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho" é um trecho de um de seus poemas mais conhecidos.

Drummond foi também cronista e contista, mas foi na poesia que mais se destacou. Foi o poeta que melhor representou o espírito da Segunda Geração Modernista com uma poesia de questionamento em torno da existência humana.

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