[RESENHA #571] escova de dentes, de Cris Oliveira


APRESENTAÇÃO

A poeta não é uma fingidora. O que ela fingiu por um tempo foi que não era poeta. Segurou, disfarçou, mas as palavras que ela tanto tinha começaram a sair, a ocupar espaço, a voar. Palavra presa quer sair; pessoa, então... “Minha coragem é minha liberdade”, ela escreveu e eu li.

Corajosa e livre, Cris Oliveira lança seu primeiro livro colocando nosso cotidiano em poesia e nos fazendo repensar cada palavra. Para ler e reler sem cansar e sempre descobrindo coisas novas.

— Roberta Martinelli

RESENHA

Cris Oliveira é uma escritora nata, em seu primeiro livro ela desdobra sobre as minúcias do cotidiano da vida, como escovar os dentes ou espetar o bolo quente com palito de dente. Sua prosa altamente revigorante transita entre o agora e o amanhã, livre de pretensões ou planejamentos, é tudo assim, solto no ar como a poesia deve ser. 

A obra é um emaranhado poético elaborado com um fio condutor espelhado, não começando do início e não tendo um caminho específico à se tomar, mas se estilhaçando em diversos pedaços e lugares distintos, pois sua poética soma-se em sua totalidade, alternando entre um poema e outro sempre com resquícios de um poema anterior, todos fomentados de forma minuciosa pelas descrições do cotidiano, do medo, do fracasso, da dor e dos desejos que circundam a esfera cívica emocional.

o poema palito de dente, na página 22 é uma descrição sobre a vida cotidiana que as vezes levamos solitariamente de forma descontinuada sem percebermos enquanto vivenciamos o agora, a crítica é, de certa forma, uma forma de pensar e repensar o agora e o depois por meio da própria companhia, bem como o desenvolvimento que encontramos na solitude que desfrutamos em nossa própria companhia.

ando meio sem verbo nem verbete

tenho um pingente

de coração

uso palito de dente

para furar

bolo quente

fincar azeitonas

limpar as unhas

desentupir o bico da super cola

quase não vejo gente


ando sem ter o que

dizer sem

saber o quem

pra quem (p.22)

o poema que dá título ao livro é uma descrição daquilo o que fazemos continuamente todos os dias, daquilo que ansiamos e sentimos saudade, é a experimentação da prova do desapego às rotinas, ao passo de que somos levados à completar-nos com a saudade do que fazíamos e do que fazemos para distrair a saudade daquilo o que costumávamos vivenciar. A obra contem 102 páginas e diversos poemas que transitam entre os sentimentos aflorados no cotidiano e nos sentimentos que sentimos ou deixamos de sentir por meio da ação do tempo, cada poema carrega em si uma particularidade única que torna a experiência com a escrita da autora algo mágico, único e que vale a pena viver, não apenas uma outra vez, mas sempre, como num exercício de autoreflexão.

Já no poema sobre o desperdício (p.45), a autora nos fala sobre a importância de dizer o que temos para declarar ou enfatizar, de não deixar passar a hora, nem o momento não desperdiçando oportunidades de falar o que sentimos no momento em que sentimos.

tudo o que eu não digo

cai no despercebido

um maldito não dito (p.45)

 já o poema se (p.49), é o mais proeminente quanto o assunto é sentir e viver.

se

não cutucar mais a ferida

botar panos quentes

tocar o sapato velho

descascar o abacaxi

arrumar a gaveta

vestir a camisa

acertar os relógios

juntar             o ir e vir

dobrar mais uma esquina

jogar o jogo

não perder o      fôlego

voltar para casa

virar a maçaneta

entrar

A obra de Cris trabalha na síntese de que somos tomados por sentimentos durante o dia-a-dia, observa-se, que, em seu primeiro livro, a autora optou por uma abordagem não-direta, abrindo caminhos para interpretações eu em detrimento do sentimento que nos evoca no momento, entre outras palavras, a obra tensiona uma experimentação individual de cada leitor, afinal, cada um vive e sente de uma forma diferente, mas a receita é apenas uma: o dia-a-dia.

la bise, poema que me tomou por completo, pag. 91, é uma experimentação acerca dos sentimentos que nos tomam quando menos esperando -  quando bate o vento frio, são ares ou pesares? quando somos tomados pela ansiedade somos invadidos pelo processo do agora, mas não focamos no final, e por fim, somos dominados pelo poder do agora, não refletindo no porvir, tudo não passa de um eterno ferme de budé, p.90 :

penso no vento

que balança

o trigo

penso no trigo

não penso no pão.

poemas que nos lembram da brevidade dos momentos, como em na fotografia:

não sei e você está tirando ou calçando o sapato, p.87.

Em síntese, a obra é um convite à experienciarmos o simples da vida. Neste primeiro livro a autora traz questões relevantes para uma reflexão diária, a leitura de seus poemas torna-se necessária durante todos os dias, como um exercício de auto-análise e reflexão. Sem dúvidas, uma autora proeminente que conquistará uma legião de fãs de poesias.

A AUTORA

Cris Oliveira (@cris_taiane) (São Paulo, 7 de março de 1974) é formada em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo e trabalha com gestão de coleções digitais e metadados na sede da OMS em Genebra. Frequentou os cursos Escrevendo Poesia da Oxford University, Escrita Criativa da Esc. Escola de Escrita e Narrativas Curtas da Universidade de Cambridge. Atualmente frequenta o curso de Tradução: Inglês-Português da Universidade de Toronto. Participou em antologias da I Jornada de Poesia Virtual e do VI Festival de Poesia de Lisboa, tem textos publicados na Ruído Manifesto, selo Off Flip e no blogue da Bibliotrónica Portuguesa da Universidade de Lisboa. Escova de dentes (Paraquedas, 2023) é seu primeiro livro.


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