[RESENHA #573] Meu nome é Selma, de Selma Van de Perre



APRESENTAÇÃO

A autobiografia de uma judia, disfarçada de ariana que sobreviveu às atrocidades da Segunda Guerra e combateu um dos regimes mais autoritários da nossa história. Mas, não espere uma biografia qualquer, a autora Selma van de Perre revela com firmeza - e também delicadeza - como saiu viva de Ravensbruck, na Holanda. As palavras de Selma são repletas de esperança e coragem. Ela tinha 17 anos quando foi deflagrada a Segunda Guerra Mundial. Até aquele momento, ser judia na Holanda não era algo digno de nota. Já em 1941, era questão de vida ou morte. Ela se juntou ao movimento de Resistência e assumiu uma identidade falsa para se passar por ariana. Usando o nome “Marga”, Selma fez “o que foi preciso” para combater o regime nazista. Mas, em 1944, sua sorte acabou, e ela foi levada como prisioneira política para o campo de concentração de Ravensbrück. Hoje, prestes a completar cem anos, ela continua sendo uma força da natureza.

RESENHA

A extraordinária biografia de uma combatente da resistência judaica holandesa e sobrevivente do campo de concentração de Revensbruck. 

Quando o exército do terceiro reich invadiu a Holanda em 1940, Selma, uma estudante de apenas dezoito anos, viu sua vida mudar da noite para o dia com a perseguição sistemática do povo judeu. Afastados e despojados de seus bens, trabalho, educação e vida cívica, o povo judeu holandês se viu perseguido pela Gestapo, pela policia colaborativa, pelos delatores e pelos milhares de aliados. Enviados para o campo de extermínio de Ravensbruck. Começava ali, um início do cenário de horror inimaginada.

Ravensbrück é uma cidade no nordeste da Alemanha, isolada, mas facilmente acessível a partir de Berlim. Os primeiros prisioneiros chegaram em 18 de maio de 1939. Havia cerca de 132.000 mulheres e crianças trancadas no campo de concentração, 92.000 das quais morreram de fome, doenças e execuções. [p.100]

Selma conseguiu fugir da perseguição por um tempo, adotando um nome diferente (Marga), agindo clandestinamente entre Holanda, Bélgica e França, falsificando documentos, abrigando centenas de judeus expatriados, até que foi presa em 1944 e enviada para o campo de extermínio Ravensbruck, ela conseguiu manter-se viva até o dia de sua libertação sob o uso de um pseudônimo, o que não ocorreu da mesma forma que seus pais e irmãos que acabaram sendo mortos no campo.

Nada em nossos rostos denuncia o que estava por vir nos próximos três anos: as mortes de meu pai, minha mãe e Clara, minha avó, tia Sara, seu marido Arie e seus dois filhos, e muitos outros membros da família, não por causas naturais ou um acidente, mas das atrocidades que se espalhavam na Europa na época da foto e logo chegariam também à Holanda. [p.11]

O livro foi escrito por Selma no auge de seus 98 anos de idade, suas descrições acerca dos ocorridos, da infância e de todo processo de expatriação são incrivelmente profundos e tocantes. Assim como toda grande catarse, a obra desenvolve primeiramente na narrativa acerca da infância e vida com a família, uma grande e amorosa família e seus desdobramentos até o dia de sua remoção social até o campo de extermínio. 

[...] . É uma imagem banal de uma família normal; estamos passando uma tarde agradável, curtindo o jardim e a companhia um do outro. Uma imagem de como deve ser o tempo gasto com os membros da família: amoroso, seguro, agradável, previsível. (grifos meus) [p.11]

Selma narra que o processo de expatriação ocorreu de forma gradativa, os oficiais retiravam aos poucos os seus poderes sociais e sua participação política, bem como limitavam seus ganhos, participação pública e empresas.

No ano seguinte, em maio de 1942, além de documentos valiosos, também tivemos que entregar todos os nossos bens, e um dos escritórios do banco tornou-se depósito de nossas mercadorias. Era preciso depositar obras de arte, joias e móveis, além de objetos mais cotidianos como louças e bicicletas: enfim, tudo que pudesse render renda aos nazistas. Nada era muito insignificante; até as colheres de chá foram confiscadas.  [p.37]

Em 1942, o governo iniciou a divisão dos povos que futuramente seriam levados aos campos de concentração, marcando-os obrigatoriamente com marcas que pudesse tornar fácil a identificação de um grupo específico, para os judeus, todos os documentos de identidade foram carimbados com um J, enquanto eram obrigados à costurar em suas vestes a estrela de Davi no alto do peito, nascia ali, o começo do fim de uma população.

Em 23 de janeiro de 1942, os judeus foram carimbados com um grande "J" em seus documentos de identidade, que serviam para distingui-los do resto da população. Em 3 de maio, todos os judeus com seis anos ou mais receberam a ordem de usar uma estrela de Davi amarela com a palavra Jood, "judeu". A estrela tinha que ser costurada em nossas roupas na altura do peito, para que fôssemos facilmente reconhecíveis. Foi um momento terrível: percebemos o quanto éramos estigmatizados. [pag.37]

A autora descreve que a situação tornou-se cada vez mais sombria. Em 1942, exatos setecentos judeus foram detidos em Amsterdã e, no dia seguinte, transportes para o campo de trânsito de Westerbork, com destino final em Auschwitz, na Polônia ocupados por alemães.

A partir deste ponto, Selma narra todo seu medo, anseio e luta durante os anos de cárcere no campo de concentração. Seus relatos são repletos de sofrimento e de uma resiliência inimaginada para alguém de 98 anos descrevendo tais acontecimentos.

A escrita de Selma é honesta e envolvente, transmitindo as emoções vividas durante esse período sombrio da história. Ela nos faz refletir sobre a importância da coragem e da solidariedade em tempos de opressão. Um livro memorável e obrigatório a todo leitor que busca uma compreensão mais assertiva dos eventos da ocupação nazista durante o terceiro reich na Holanda por meio da visão de uma resistente.

Nenhum comentário

Postar um comentário

© all rights reserved
made with by templateszoo