[RESENHA #579] Bruxaria em poesia, de Mateus Cabot

Novo livro do jornalista Mateus Cabot é um emaranhado poético e sincero acerca da bruxaria ritualística.



APRESENTAÇÃO

Bruxaria em poesia é um livro de poesias escrito pelo autor e jornalista Mateus Cabot, a obra é um emaranhado poético elucidativo e filosófico do autor em relação à religião wicca, ou, mas comumente conhecido, a bruxaria. A obra desmistifica tabus e receios criados por intermédio do preconceito herdado da heresia das igrejas cristãs, da inquisição e da perseguição às bruxas, tudo de forma velada e nas entrelinhas. O autor preocupou-se em desenvolver uma escrita prolífica e sensata acerca dos encantamentos, feitiços e do real significado da bruxaria em relação à natureza, aos animais e ao bem estar.

RESENHA

Bruxaria em poesia é o primeiro livro do autor e jornalista Mateus Cabot, publicado em 2022 através da Editora Ascensão. 

A obra se inicia com uma carta do autor que explicita como se deu o envolvimento com a bruxaria em sua vida. Tudo começou por volta de seus doze anos, o autor descreve a casa de sua família alegre e repleta de risos, mas que naquele dia em específico, o silêncio pairava. Havia uma caixa pesada no quarto dentro de um armário que carregava alguns títulos específicos do universo do encantamento e da feitiçaria. Mateus descreve o caminho de autodescoberta como algo jamais sentido antes, todos os primeiros contatos e todos os envolvimentos que se desenvolveram com a natureza foram cruciais para o desenvolvimento de seus conhecimentos e na busca de novas experiências com a natureza.

o primeiro poema da obra, a descoberta da primeira página, 12, é uma descrição poética do primeiro contato do autor com os livros que o inseriram no meio da magia.

sobra o pó / cavuca e encontra / vira a folha / o som ecoa / o silêncio grita / sobe pela espinha / vê o bosque / olha as copas / dançam lá acima / olha à volta /  um breu de sol [...] (p.12)

Já o segundo poema, grande mãe, é um poema dedicado à deusa mãe, a divindade primordial desde o despontar da História da Humanidade. Em todas as religiões, a figura feminina é posta com destaque pelo seu poder de prover vida e fertilidade, e aqui, não é diferente. O poema discorre sobre os sentimentos do autor em relação aos sentimentos aflorados entre ele e a Deusa Mãe, um poema lindo, simples e repleto de energia.

quando ouvi seu nome, já conhecia / o seu rosto, já via / quando dormia / e me perdia / me permitia / voar [...] (p.14)

O terceiro poema é profundo e histórico, chifres, aqui, o autor desvencilha os tabus acera do chifre e do medo que ele desperta em algumas pessoas. O medo e o desenvolvimento do medo acerca dos chifres é fruto dos tabus impostos pelas religiões, sobretudo, o cristianismo. Os chifres na bruxaria indicam a figura do deus cornífero, uma entidade que rege e guarda as matas, florestas e os animais, porém, sua simbologia foi distorcida historicamente por consta da perseguição e da intolerância da igreja com as bruxas e com o culto à deuses pagãos, o que ocasionou em sua demonização. O poema é repleto de frases que denotam o real sentido do culto, dos chifres e da presença onipresente do deus cornífero em tudo o que tocamos ou vemos, sobretudo, a vida verde e animal.

quem tem medo de chifres? / na penumbra, a silhueta / no bosque à espreita / sob a lua o uivo / e os sons da mata / latidos, arbustos, rusgos / rugidos, talvez / quem tem medo de chifres? [...] o verde das plantas / o tronco da árvore / a flor na savana e a lama / a lama e a campina branca e a mata fechada e a floresta / lá no topo eu vejo (p.15)

 poema, a brilhante, é um ensaio acerca da deusa Aine de Knockaine deusa solar, soberana da luz, da fertilidade da terra e do amor, cujo nome significava “prazer, alegria, esplendor”.

o Efêmero / o sopro, a Tentativa / o sonho / o brilho / Ela brilha / Áine, A Brilhante / da colina de Knockaine. (p.21)

O livro não é apenas um emaranhado poético, mas uma descrição histórica, filosófica e bastante rica da bruxaria no meio em que vivemos. Em seus versos, desmistificam-se tabus, medos e desinformação. Mateus trouxe uma escrita proeminente acerca da existência da poesia e do encantamento por meio da essência wicca, a feitiçaria em carne crua, o desvencilhamento dos caminhos e das óticas que percorrem o universo material por meio do imaterial e do aguço dos sentidos. Um livro para se ler mais de uma vez, para se aprender em cada página, e sobretudo, para se sentir além.

A união entre a fé a poesia.

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  1. Vitor, muito obrigado pelo seu texto! Gostei de ver como contextualizou e fiscou muitas das referências :) Que bom que gostou!

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    Respostas
    1. Seu livro é incrível, amei cada pedacinho dele. PARABÉNS!

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