[RESENHA #585] O primeiro indígena universitário do Brasil, de Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira e Marcelo Sant'Ana Lemos


APRESENTAÇÃO

José Peixoto Ypiranga dos Guaranys viveu entre os anos de 1824 e 1873 e foi o primeiro bacharel indígena formado na Faculdade de Direito de São Paulo. Sua história e luta pelo direito de acesso ao ensino superior, que se inicia no Rio de Janeiro oitocentista, na outrora aldeia de São Pedro, numa Cabo Frio do século XIX, ressoa ainda na sociedade de hoje, quando o Brasil chega à celebração do bicentenário de sua independência de Portugal.

É o que mostram os historiadores Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira e Marcelo Sant'Ana Lemos, que resgatam neste livro a instigante e complexa trajetória desse personagem.

Ypiranga dos Guaranys atuou como advogado, foi vereador e ocupou importantes cargos públicos em Cabo Frio e Macaé. Em São Paulo, foi colega de classe do escritor José de Alencar. Destacou-se por sua participação nos debates políticos, ideológicos e literários sobre os povos indígenas.

Esta é sem dúvida uma publicação de relevância para nossa historiografia, como destacam Maria Regina Celestino de Almeida e José R. Bessa Freire em seus textos introdutórios. A obra tem, entre outros, o mérito de mostrar a importância de se considerar a presença e participação indígena nos processos intrínsecos que ajudaram a construir o Estado e a identidade do povo brasileiro.

RESENHA


Moreira, Luiz Guilherme Scadaferri: O primeiro indígena universitário do Brasil: Dr. José Peixoto Ypiranga dos Guaranys (1824-1873) // Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira, Marcelo Sant'Ana Lemos. -- 1ed. -- Cabo Frio, RJ: Sophia Editora, 2022.

A obra o primeiro indígena universitário do Brasil, de Luiz Guilherme Scaldaferri e  Marcelo Sant'Ana Lemos é um relato histórico acerca vida e formação do primeiro indígena brasileiro a se formar na faculdade de Direito de São Paulo, em 1850, onde ingressou em 1846. A obra foi editada pela Sophia editora e consta com um trabalho gráfico editorial impecável, que torna a leitura ainda mais histórica, imponente e forte em seu propósito.

A obra se inicia com uma descrição breve do império ao qual o Brasil era comandado no ano entre 1840 e 1849, durante o reinado de D. Pedro II, que desenvolveu uma tarefa árdua de se  civilizar os povos não categorizados como civilizados ou hostis, uma tarefa complexa, mas ao qual acreditavam ser possível.

Ao longo do curso, reafirmou a sua identidade de indígena, ao mudar de nome para José Peixoto Ypiranga dos Guaranys. Após se formar, o “índio, cristão, ci-vilizado”, súdito e, agora, bacharel em direito se apresentava a serviço do impe-rador/Estado, o que lhe permitiu manter a família na elite política, econômica e social do Império. [Trecho do artigo O primeiro indígena universitário do Brasil]

A história de Ypiranga dos Guaranys é uma forma de desmontar a história do Brasil durante o processo e percurso de construção social da independência do Brasil, fomentando ainda mais a participação histórica do povo indígena durante todo este processo, com suas contribuições para a democracia, bem como para o desenvolvimento da pluralidade de povos e oportunidades que se sucederam a partir dai, uma vez que o mesmo encontrou durante o período de formação acadêmica alguns pontos que somaram de forma significativa em sua vida social e construção política, como, o bacharel e as constantes apresentações como representante do império, o que manteve sua família na elite, dentre outros feitos.

A colonização era uma forma de trazer os indígenas para a civilização, de acordo com um texto de Januário da Cunha Barbosa, esse feito se daria por meio do contato frequente dos povos com os homens brancos, como uma forma de miscigenar o povo em uma política constante de branqueamento, porém, os indígenas eram dotados de uma riqueza particular de vida, o que dificultava o trabalho de civiliza-los de forma satisfatória, ainda que o recurso buscasse uma miscigenação [mistura de raças], o processo encontrou alguns percalços. Os índios considerados uma raça inferior ameaçavam, segundo eles, o processo civilizatório e econômico do país, desta forma, foi-se necessário iniciar uma tática que permitisse uma integração deste povo de forma pacífica ou violenta. 



Detalhes da diagramação da obra 

Pouco se conhecia acerca dos índios e seu modo de vida, desta forma, era necessário traçar uma nova perspectiva que permitisse um estudo mais abrangente acerca das táticas tomadas para o processo civilizatório deste povo.

Desta forma através das linha de acontecimentos temporais:

[...] O ensino secundário acabou por ser influenciado pelo viés humanístico do ensino superior, sobretudo o do curso de direito, que era o mais procurado. No geral, ficou quase que restrito à iniciativa privada e, portanto, grande parte da população, sobretudo, das camadas mais baixas, estava excluída de qualquer instrução escolar (Ferreira Jr. 2010, p.33 e Romelli, 1986, p.39). (p.70) [grifos meus]

Desta forma, aprendeu alguns princípios gramaticais, geometria e o contato com o desenvolvimento da moral cristã que estava em voga, bem como a ideologia oficial do estado, o que o levou para São Paulo para o ingresso no curso de direito (p.75).

Aos 22 anos, Ypiranga dos Guaranys, matriculou-se na Faculdade de Direito. Durante os estudos, ele se envolveu ativamente no mundo acadêmico, onde se debatiam direito, política e literatura. O principal objetivo desse ambiente era fornecer uma educação clássica, voltada para a formação de bacharéis destinados a ocupar cargos políticos (p.74). Além das matérias específicas da área jurídica, o curso de Direito, assim como outros cursos superiores, também oferecia uma formação humanista, englobando disciplinas como filosofia e retórica. A maioria dos estudantes era composta pela elite da aristocracia agrária, que buscava garantir títulos de "doutores" em Direito para seus filhos.

Além do controle ideológico exercido pelo Estado sobre o curso, que envolvia o currículo, os programas das disciplinas e os livros adotados, havia ainda a presença de outra estrutura conhecida como padroado. Essa estrutura se manifestava na disciplina de "direito público eclesiástico", que abordava a institucionalização do cristianismo romano como religião oficial do Estado.

Em 1854, pediu a seu pai [Joaquim Rodrigues Peixoto] que solicitasse o ressarcimento dos gastos que teve com ele durante sua formação, o que foi o estopim para que se começassem os debates acerca da importância da formação acadêmica dos indígenas.

Todavia, podemos perceber como Joaquim Rodrigues Peixoto apresentava a sua família como 'civilizada', por meio da 'boa educação', e que tinha o dever de 'tutelar' os indígenas 'pobres', 'viciosos' e 'degradados', da antiga aldeia colonial de São Pedro rumo a 'civilização'. (p. 99)

Os dois pedidos mostram como os indígenas, de forma isolada / familiar (1854) ou como aldeados (1872), traçaram estratégias para obter ganhos. Para isso, precisavam ter amplo conhecimento da burocracia e finanças do Estado, uma vez que, dependiam de respostas dos mais alto níveis de administração imperial, provincial e municipal e do uso de recursos que estavam à sua volta - foros pagos à conservatória dos índios - para o pagamento das mensalidades dos cursos superiores, que eram todos particulares no Brasil Império (p. 99).

A obra também analisa toda árvore genealógica de Ypiranga dos Guaranys, desde seu pai à seus avós, bem como todos os proventos por ele herdado e todas as conquistas no meio jurídico e social, levando em consideração sua forte influência para enfatizar e levar ao foco público a importância do ingresso em cursos de nível superior aos indígenas. Os autores preocuparam-se em estabelecer uma linha cautelosa de acontecimentos que marcam todo o processo do contato e encontro entre os indígenas locais e o ideal da educação comum para todos.

O que podemos observar é que está obra é simplesmente histórica e necessária, que precisa ser lida por todos, para conhecimento e entendimento acerca do percursos adotados no meio acadêmico brasileiro dentro das fontes históricas, bem como o desenvolvimento de uma sociedade mais miscigenada, mista e única em propósitos civilizatórios arraigados à educação e na iniciativa de um povo por meio do processo de perfomance em prol do bem comum social coletivo.

Análise de Livro
Capa do Livro

Avliação geral

O primeiro indígena universitário do Brasil é um estudo apaixonante. A obra escrita por Scaldaferri e Sant'Ana Lemos é, certamente, uma das obras mais complexas acerca da vida e existência de Ypiranga dos Guaranys. O autor preocupou-se em estabelecer uma linha cronológica que possibilitasse ao leitor conhecer todos os caminhos da importância da história da persona, tornando a obra rica em detalhes e documentos históricos. Uma obra para usar como referência para futuras biografias pelo mundo, um zelo notável.

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