[RESENHA #586] O próximo e o distante, ensaios sobre a cultura afro brasileira, de Roger Bastide

A colonização, descolonização, racismo, religião, e busca compreender que lugar ocupa o “outro” no encontro entre os povos.


APRESENTAÇÃO

Os contatos entre diferentes povos remontam aos tempos pré-históricos, com as grandes migrações, trocas comerciais, guerras de dominação etc. Apesar disso, os indivíduos tendem a preferir se enraizar em uma terra, a ficar entrincheirados dentro de uma casa, a diferenciar os “seus” e os “outros” ― estes frequentemente tratados como estrangeiros, bárbaros, seres que provocam medo e afastamento, pela diferença física ou de costumes. Ao longo da história da humanidade, notamos uma aproximação progressiva entre os povos. Com o avanço tecnológico, nos últimos séculos, dos meios de transporte e comunicação, houve uma redução da distância entre diferentes culturas. E, ao ocupar cada vez mais os mesmos espaços públicos e privados, poderíamos esperar maior fraternidade e unidade mundial entre povos distintos. No entanto, o contato com o outro costuma ser atravessado por uma mentalidade de fechamento, carregada pelos nossos preconceitos, pelas nossas ignorâncias e pela nossa dificuldade de deixar de lado o desejo de dominação e de hegemonia.

O próximo e o distante reúne artigos, conferências e cursos produzidos no período de 1950 a 1965, aos quais o autor acrescenta dois capítulos originais e alguns textos que os conectam. O livro se articula em torno do conceito de aculturação, que Bastide associa à “interpenetração das civilizações”. Ele analisa o que acontece quando os homens encontram outros homens de cultura diferente, quando seu “próximo” é também um “distante”. Na primeira parte do livro, trata do “encontro dos homens”, em que interfere o preconceito racial. Em seguida, aborda o “encontro das civilizações”, com as diferentes formas subsequentes de aculturação. E, finalmente, se debruça sobre o “encontro das religiões”, com a emergência do messianismo e do nacionalismo.

O próximo e o distante é um belo livro antirracista, sem angelismos e surpreendentemente atual, que nos permite refletir também sobre o momento em que vivemos: um encontro de civilizações, com a presença “próxima”, agora realizada, dos outrora “distantes” povos africanos e asiáticos.

RESENHA


"O Próximo e o Distante" é uma obra magnífica escrita por Roger Bastide, um renomado sociólogo e antropólogo francês. Publicado pela primeira vez em 1957, o livro explora de forma profunda e reflexiva as dinâmicas sociais e culturais presentes nas sociedades brasileiras.

Bastide apresenta uma abordagem única ao estudar a relação entre o "próximo" e o "distante", conceitos que se referem às interações e conexões entre os diferentes grupos sociais dentro de uma sociedade. Ele argumenta que a compreensão dessas relações é essencial para entender a estrutura social e a diversidade cultural de uma nação, como o Brasil.

Ao longo do livro, o autor utiliza uma vasta gama de exemplos e estudos de caso para ilustrar suas ideias. Ele explora temas como a hierarquia social, as relações raciais, as práticas religiosas e as manifestações culturais, examinando como esses elementos se entrelaçam e influenciam a vida cotidiana dos brasileiros.

Uma das contribuições mais importantes de "O Próximo e o Distante" é a análise profunda e sensível do fenômeno do racismo no Brasil. Bastide destaca como as relações raciais são complexas e multifacetadas, e como a hierarquia racial molda a vida das pessoas. Ele também enfatiza a importância de uma abordagem antropológica para entender, combater e superar o racismo. A divisão de sua obra faz um enfoque profundo e atento aos problemas de raça no Brasil sob diversas óticas distintas, desde cotidianas à históricas.

A obra do autor divide-se em três partes, sendo elas:

1. O encontro dos homens: Um capítulo que volta-se para uma análise aprofundada acerca do preconceito racial brasileiro, os problemas das relações raciais no ocidente, a dimensão da problemática no campo econômico, sexual (à vênus) e à dimensão religiosa.

2. O encontro das civilizações: Neste capítulo o autor desdobra-se à explicar como se deu o processo de aculturamento (introdução de uma nova cultura à outra) na esfera formal; jurídica, folclórica, culinária, literária e religiosa.

3. A tempestade mística: Introdução dos mitos e utopias acerca da cultura afro em território brasileiro; o messianismo e a fome; o messianismo inconcluso;  nacionalismo  e o desenvolvimento social e econômico.

Uma das principais ideias abordadas por Bastide é a noção de "próximo" e "distante" como categorias que influenciam as interações sociais. De acordo com o autor, o "próximo" se refere àqueles que compartilham das mesmas experiências e valores culturais, enquanto o "distante" representa aqueles que estão fora desse círculo de familiaridade. Bastide argumenta que essas categorias são fundamentais para compreender as relações sociais e as dinâmicas de inclusão e exclusão no Brasil.

No livro, Bastide também discute o tema das relações raciais no Brasil, destacando a complexidade da questão e as diferentes formas de discriminação e preconceito presentes na sociedade. Ele argumenta que o racismo no país é estrutural e cultural, e que a miscigenação não é suficiente para eliminar as desigualdades raciais. Bastide enfatiza a importância de políticas públicas que promovam a igualdade racial e a valorização da cultura afro-brasileira. Em síntese, a obra de Bastide é um convite incrivelmente necessário ao fomento dos estudos nas áreas de ciências sociais e história para uma compreensão mais assertiva acerca do desenvolvimento do campo social e suas contribuições analíticas das relações interraciais.

O AUTOR

Roger Bastide (1898-1974) foi um sociólogo e antropólogo francês, considerado uma das maiores referências da sociologia no Brasil e na França. Chegou ao Brasil em 1938, acompanhando a missão francesa que havia implementado o curso de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, onde substituiu Lévi-Strauss e lecionou até 1954. Alguns de seus alunos foram Antonio Candido, Gilda de Melo e Souza e Florestan Fernandes. Com este último, inclusive, coordenou um estudo da Unesco sobre a questão racial do Brasil. Bastide dedicou-se ao estudo das religiões afro-brasileiras, da arte e da literatura nacionais e do sincretismo religioso no país. Entre suas principais obras, estão Brasil: terra de contrastes, O candomblé da Bahia e Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo (com Florestan Fernandes).

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