[RESENHA #594] Crônicas exusíacas & estilhaços pelintras, de Luiz Antonio Simas

 

APRESENTAÇÃO

Inédito de Luiz Antonio Simas, o historiador que é referência sobre cultura popular brasileira.

Crônicas exusíacas e estilhaços pelintras reúne registros de assombro e alumbramento sobre a cultura e a gente brasileira. Tocado por Exu – orixá mensageiro, senhor das encruzilhadas – e de seu Zé Pelintra – protetor do povo das ruas -, o historiador Luiz Antonio Simas compartilha visões e táticas fresteiras contra a mortandade produzida pelo desencanto do mundo.

Nos 77 textos que compõem o livro, passeiam personagens vivíssimos – deste ou de outros mundos –, como Jaiminho Alça de Caixão, o “inventor” da profissão de papagaio de pirata; o maestro Tom Jobim tomando uísque com o imperador Nero incorporado em um médium; e a descida da entidade Nelson Rodrigues na Penha Circular. Aparecem também temas como a violência do capital sobre corpos, culturas e territórios, a força do encanto, o samba e o jogo do bicho.

Para o pedagogo e escritor Luiz Rufino, que assina o texto de orelha, “Nos pontos riscados por Luiz Antonio Simas – professor amigo da rua –, as sabedorias praticadas no trivial enredam histórias confiadas com graça, afeto, cisma e firmeza, que honram as memórias plantadas nos quatros cantos da sua aldeia.”

RESENHA


SIMAS, Luiz Antonio -- Crônicas exusíacas & estilhaços pelintras // Luiz Antonio Simas. -- 1ed. -- Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023. ISBN 978-65-5802-100-1

O livro Crônicas exusíacas e estilhaços pelintras é uma coletânea de relatos que aborda aspectos da cultura brasileira e de seu povo. O autor, Luiz Antonio Simas, é historiador e traz em suas crônicas visões e táticas que têm como inspiração Exu, um orixá mensageiro e senhor das encruzilhadas, e seu Zé Pelintra, considerado o protetor do povo das ruas.

Exu é uma divindade presente na religião afro-brasileira, especialmente no candomblé e na umbanda. Ele é conhecido como um intermediário entre os seres humanos e os orixás, sendo responsável por levar as oferendas e mensagens dos fiéis aos deuses. Além disso, Exu é considerado o senhor das encruzilhadas, lugares que simbolizam pontos de encontro de energias e caminhos diferentes. Sua figura é associada à travessia, às escolhas e aos limites entre o sagrado e o profano.

Zé Pelintra, por sua vez, é uma entidade que faz parte da cultura popular brasileira, principalmente no Nordeste. Ele é retratado como um malandro, um personagem típico das ruas, que possui características de um boêmio e de um protetor do povo que vive à margem da sociedade. Zé Pelintra é conhecido por sua astúcia e habilidade para lidar com as adversidades da vida cotidiana.

Ambos os personagens mencionados no texto possuem ligações com a religiosidade e a espiritualidade presentes na cultura brasileira. Exu é reverenciado e cultuado nas religiões afro-brasileiras, sendo considerado uma das principais divindades. Já Zé Pelintra tem uma presença forte no imaginário popular, sendo frequentemente invocado em rituais e cultos, principalmente relacionados à proteção e à resolução de problemas cotidianos.

A escolha dessas personagens para embasar as crônicas de Luiz Antonio Simas pode ser entendida como uma forma de resgatar e valorizar aspectos da cultura brasileira que muitas vezes são marginalizados ou estigmatizados. Exu e Zé Pelintra representam a força e a sabedoria presentes nas camadas populares da sociedade, trazendo consigo uma visão particular sobre a vida e os desafios enfrentados pelos brasileiros.

Ao utilizar Exu e Zé Pelintra como referências, o autor busca compartilhar visões e táticas "fresteiras" - termo que remete a algo marginal, fora dos padrões estabelecidos - para enfrentar a "mortandade" produzida pelo desencanto do mundo. Nesse contexto, as crônicas apresentam-se como um convite à reflexão sobre a cultura brasileira, suas raízes religiosas e a importância de valorizar e respeitar as diferentes manifestações culturais presentes no país.

O livro composto por 77 textos, nos quais são apresentados personagens vívidos provenientes de diferentes realidades, sejam elas deste mundo ou de outros. Entre esses personagens, destacam-se Jaiminho Alça de Caixão, considerado o "inventor" da profissão de papagaio de pirata, o maestro Tom Jobim em um encontro com o imperador Nero incorporado em um médium, e a manifestação da entidade de Nelson Rodrigues na Penha Circular.

Além das figuras mencionadas, o livro também aborda temas como a violência do capital sobre corpos, culturas e territórios, a força do encanto, o samba e o jogo do bicho. Esses temas são abordados de forma a retratar a realidade social e cultural brasileira, explorando questões relacionadas à exploração econômica, à resistência cultural, à música e às práticas de jogo.

Na apresentação da obra o autor detalha os tópicos que poderão ser abordados em suas narrativas que podem ser lidas em qualquer ordem, não sendo obrigatória uma leitura contínua, uma vez que cada texto progride de forma única dentro de seu universo particular.

[...] breves ensaios sobre o colonialismo, outros sobre mitos e ritos, entrecruzam-se com pequenas aventuras cotidianas de sambistas, papagaios de piratas, apontadores do jogo do bicho, ambulantes, profetas, namorados, membros do esquadrão da morte, defensores intransigentes da vida, espíritos desencarnados, malandros maneiros, erês, assombrações, defuntos frescos, bodes, cachorros, toques de atabaques, sons de agogôs e de rajadas de metralhadora retratada em estilhaços desconexos (p.11) -- grifos meus. 

A presença de personagens como Jaiminho Alça de Caixão, Tom Jobim e Nelson Rodrigues, tanto em situações reais quanto imaginárias, remete à fusão entre o real e o fantástico, criando uma atmosfera de mistério e encantamento. Essa mistura de elementos reais e imaginários pode representar uma forma de criticar e refletir sobre a realidade, utilizando recursos literários para abordar questões sociais e culturais de forma criativa e simbólica.

O livro também parece explorar a diversidade cultural brasileira, abordando o samba e o jogo do bicho como exemplos de manifestações populares que fazem parte da identidade do país. Essas manifestações são apresentadas como elementos importantes da cultura brasileira, mas também podem ser interpretadas como espaços de resistência e de expressão da criatividade popular.

Em suma, o livro em questão apresenta uma coletânea de textos que misturam elementos reais e imaginários, trazendo personagens marcantes e abordando temas como a violência do capital, a força do encanto, o samba e o jogo do bicho. Através dessa abordagem, o autor busca explorar a realidade social e cultural brasileira, convidando o leitor a refletir sobre essas questões de forma criativa e simbólica, como em outras obras escritas pelo o autor.

O AUTOR

Foto: Divulgação // Mídia Ninja --.

Luiz Antonio Simas

É mestre em história pela UFRJ, professor e escritor. Com diversos livros publicados, recebeu o Prêmio Jabuti – Livro do Ano, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba. Juntos, também escreveram Filosofias africanas. Pesquisador das culturas e religiões populares, publicou O corpo encantado das ruas e Umbandas: uma história do Brasil. Todos os títulos foram lançados pela Editora Civilização Brasileira. Sonetos de birosca & poemas de terreiro, seu primeiro livro de poemas, foi publicado pela Editora José Olympio. Desde 2013, Simas é jurado do Estandarte de Ouro, o mais tradicional prêmio do carnaval carioca.

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