[RESENHA #601] Friday Black, de Nana Kwame Adjei-Brenyah


SOBRE O LIVRO

Seria possível encontrar, no futuro próximo, um mundo mais justo e menos selvagem? Reescrever a história, repensar a humanidade sem vícios mortais como o racismo, o consumismo exacerbado, as armas e a crueldade latente? Friday Black, livro de estreia de Nana Kwame Adjei-Brenyah, nos mostra que não.

Nesta elogiada coletânea de doze contos definida pelo The Wall Street Journal como "impressionante", tudo parece absurdo à primeira vista. Mas, em seguida, o enredo assume paralelos com a realidade e transporta os leitores de volta a acontecimentos recentes veiculados à exaustão nos noticiários. No conto "Os cinco de Finkelstein", o assassinato de cinco crianças negras na porta de uma biblioteca, seguido do julgamento do perpetrador racista, relembra a história de Trayvon Martin e de outros tantos jovens negros; o atentado em uma escola que coloca dois adolescentes — vítima e algoz — numa discussão post mortem no purgatório é o mote de "Cuspindo luz"; a corrida mortífera de humanos-zumbis pelo consumo na Black Friday, numa elegia ao capitalismo sanguinário e às suas injustas relações de trabalho, se repete nos aterrorizantes "Friday Black", "Como vender uma jaqueta, segundo o Rei do Gelo" e "No varejo".

Neste livro, a violência e o grotesco atingem seu nível máximo, sem cortes, como numa caricatura da sociedade moderna. O futuro — uma alegoria do tempo presente — é apresentado em visão panóptica, pela qual quem lê se reconhece como voyeur de algo que gostaria de participar. Em Friday Black, é por meio da barbárie que o ser humano sacia os seus desejos mais irascíveis.

Adjei-Brenyah, grande promessa da literatura norte-americana contemporânea, é um radical do absurdo. Com humor mordaz, coloca os leitores em uma situação constrangedora, numa mixórdia de sentimentos que só os grandes escritores conseguem produzir. Não existe alívio. Segundo o próprio autor, "nada é mais chato do que um final feliz", frase que talvez resuma esta obra, reflexo do século 21.

RESENHA


No livro "Friday Black", o autor nos presenteia com histórias que exploram questões urgentes de racismo e agitação cultural, revelando as formas pelas quais lutamos pela nossa humanidade em um mundo implacável. Em "Os cinco de Finkelstein", Adjei-Brenyah expõe o preconceito brutal presente em nosso sistema de justiça. Já em "Zimmerlândia", somos confrontados com uma imaginação perturbadoramente realista do racismo como um esporte. Além disso, "Friday Black" e "Como vender uma jaqueta, segundo o Rei do gelo" mostram os horrores do consumismo e o preço que todos nós pagamos por ele. Essas histórias nos levam a refletir sobre as questões mais profundas da sociedade contemporânea e nos desafiam a questionar nossas próprias ações e crenças.

Em "A Era", somos transportados para uma sociedade distópica e pós-apocalíptica, onde o impacto da modificação genética humana é explorado. Nesse cenário, o conhecimento e a inteligência precisam ser reaprendidos, desafiando os personagens a se adaptarem a um novo mundo. Por outro lado, em "Cuspindo luz", somos apresentados a um atirador solitário do ensino médio, conhecido como Fuckton por seus colegas de classe. Ele é confrontado pelo fantasma do jovem que acabou de assassinar e, juntos, eles embarcam em uma jornada para salvar outra criança intimidada de uma tragédia iminente. Essas histórias nos levam a refletir sobre os limites do poder humano, a importância da empatia e o papel da coragem diante das adversidades.

Esta coleção de histórias distópicas é uma mistura intensa de violência e emoção. Conseguir equilibrar sangue coagulado com ternura é uma conquista notável. As duas histórias que encerram a coleção são as mais perturbadoras e, talvez, as minhas favoritas. Embora possam parecer gratuitas para alguns leitores que não estão prestando muita atenção às notícias ou que deliberadamente desviam o olhar, acredito que são narrativas perfeitamente estruturadas, repletas de diálogos impactantes e um equilíbrio gratificante entre tensão e alívio. A violência só é gratuita quando não serve a nenhum propósito, e ao longo de "Friday Black", somos constantemente lembrados de que a violência está intrinsecamente ligada ao que está acontecendo na América atualmente e ao legado sangrento e brutal de sua história. Adjei-Brenyah exagera apenas um pouco, ou usa uma premissa futurística hipotética para revelar algo verdadeiro sobre as profundezas desconhecidas deste país, onde insultos, impulsos e injúrias básicas são infligidos às comunidades negras.

Nessas histórias, muitos dos protagonistas são homens estranhos, frequentemente imersos em um profundo estado de sofrimento e desespero. Eles anseiam por aprovação social, seja de si mesmos ou de seus pares, enquanto enfrentam dificuldades financeiras recorrentes. Algumas dessas narrativas exploram esses temas por meio de hipérboles extremas, enquanto outras revelam o horror entorpecente do cotidiano. Adjei-Brenyah é um escritor versátil, capaz de criar um microcosmo único em cada história, que desafia nossas expectativas e nos transporta para vidas repletas de frustrações.

Uma obra prolífica repleta de uma narrativa arrebatadora que precisa urgentemente e necessariamente serem lidas por todos, todos universalmente sem contestação ou exeção.

O AUTOR

NANA KWAME ADJEI-BRENYAH nasceu em Spring Valley, Nova York, EUA. Formado na Universidade de Nova York, faz mestrado na Universidade de Syracuse. Já publicou em diversos veículos como New York Times Book Review, Esquire, Paris Review, entre outros

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