[RESENHA #617] A última volta do rio, de Nei Lopes

Neste notável romance, Nei Lopes conta a história das mudanças do Rio de Janeiro do século XX através de um típico morador carioca.

Apresentação

A última volta do Rio é o lamento de um preto carioca da gema que viveu os anos de ouro da Cidade Maravilhosa e hoje sofre com as mazelas que a estão destruindo, tais como o crime, a corrupção, o racismo religioso e a intolerância.

Maurício de Oliveira, o Cicinho, foi o primeiro de sua família a cursar o ginasial. Saído do Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro, formou-se em Direito e tornou-se procurador federal. Acompanhou todas as mudanças que o Rio de Janeiro sofreu ao longo dos anos: da transferência da capital para o interior do país (e as disputas que se seguiram) ao surgimento de novos atores políticos — e religiosos — na dinâmica da cidade. Conforme apontou Marcelo Moutinho, na orelha do livro, o percurso de Cicinho “reflete, no microcosmo individual, a trajetória de um país em permanente cataclismo [...], cheio de impasses, esquadrinhados por Nei com verve e ironia”.

Nei Lopes vem se empenhando em produzir uma literatura ficcional no qual o indivíduo negro e o povo negro, em geral, sejam protagonistas quase absolutos das tramas que desenvolve, sempre ambientadas a partir dos subúrbios do Rio de Janeiro. Este A última volta do Rio consolida definitivamente a força narrativa do autor.

“Aquela do presidente preto nunca mais saiu da cabeça do Maurício. Ele sabia que o Brasil tinha preto, bom de bola, cantor, dançarino, enfermeiro… Mas presidente da República? Como? A novidade então virou o 'segredo do Castelo' ou 'da Esplanada'. Que ainda hoje, embora não seja oficialmente um bairro, é um importante local do Centro da cidade. Aliás, antes da mudança, era o centro do Centro, por abrigar os prédios das grandes decisões, onde se julgavam os destinos, onde se ouvia a música mais refinada, viam-se os melhores filmes estrangeiros, tomava-se o chope mais bem tirado, cobiçavam-se as mulheres mais bonitas e invejavam-se os homens mais bem trajados. Aqui é que era o Rio, com R maiúsculo.”

RESENHA


Maurício de Oliveira, também conhecido como Cicinho, nasceu tendo sido criado em Irajá, uma região da zona norte do Rio de Janeiro. Ele foi o primeiro de sua família a completar o ensino médio e seguiu adiante, obtendo um diploma em Direito e se tornando procurador federal. Ao longo dos anos, ele testemunhou todas as transformações pelas quais o Rio passou, desde a transferência da capital para o interior do país, com todas as disputas que se seguiram, até o surgimento de novos atores políticos e religiosos na dinâmica da cidade. A jornada de Cicinho reflete individualmente a trajetória de um país em constante turbulência, repleto de impasses, que Nei Lopes explora com perspicácia e ironia.

Nei Lopes tem se dedicado a produzir uma literatura ficcional na qual o indivíduo negro e o povo negro, em geral, sejam protagonistas quase absolutos das tramas, sempre ambientadas nos subúrbios do Rio de Janeiro. “A Última Volta do Rio” consolida definitivamente o poder narrativo do autor. Autor, compositor e cantor, Nei Lopes nos presenteia mais uma vez com uma obra magistral que tende a se mostrar encantadoramente repleta de nuances de um Rio de Janeiro de outrora.

Com uma prosa histórica, o autor delineia as ruas e as paisagens da cidade maravilhosa em seu ápice, e claro, seu declínio social em relação à crescente onda de intolerância racial, social, política e religiosa. Uma obra que me lembrou muito a alma encantadora das ruas, de João do Rio, publicado originalmente em 1908, onde o autor, observa de forma minuciosa e crítica as transformações que a modernidade trouxe para a cidade do Rio de Janeiro, bem como as transformações que tomaram conta da crescente populacional. Há aqui, um paradoxo, entre o encontro e a narrativa de dois autores distintos que descrevem períodos relativamente próximos da história da cidade maravilhosa, bem como suas nuances e descrições políticas e sociais acerca do desenvolvimento das problemáticas sociais que tomaram conta dos tempos atuais na grande metrópole. 

O título da obra do autor também é uma forma de demonstrar que a vida é como o curso de um rio, ou seja, sempre em constante mudança e jamais sendo interrompida. Assim como em a ultima volta do rio, o contexto histórico dá obra baseia-se na construção enraizada no crescimento populacional e na miscigenação de povos, ocasionando em conflitos sociais poderosos e destrutivos, como a intolerância e o racismo.

A história construída pelo autor mostra-nos a vida e o crescimento de seu personagem, Cicinho [apelido carinhoso de Maurício de Oliveira, gentilmente dado por sua mãe], desde à chegada na cidade maravilhosa a seu ingresso na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, bem como sua sede por dias melhores. 

A memória de sua família materna guardava histórias de um bisavô escravizado, chamado Casemiro, cujo filho, já no começo do século XX, progredira e enriquecera já na capital federal, à custa do próprio esforço. (pag. 61)
A narrativa também explora a criação da divisão social estabelecida com os avanços [ou retrocessos] na cidade maravilhosa:

Certamente foram essas elites que, tomando a natureza como parâmetro, optaram pela separação da cidade em duas partes: uma vírgula, predominantemente litorânea, abrigando preferencialmente os ricos e remediados; e a outra, do outro lado da grande montanha, reservada aos cidadãos tios como segunda classe. (p. 113)
A criação e crítica acerca da criação do termo urbano, processo de urbanização da cidade:

Da mesma forma que a recente difusão do termo urbano, como sinônimo de cosmopolita e universal, é uma criação dos modernos de hoje, a generalização da ideia de subúrbio como lugar carente, sem ordem nem conforto, habitado por pessoas pobres, sem educação ou refinamento, parece ser uma criação das antigas elites cariocas. (p.112-113)
A obra também descreve o agravamento do racismo e o atravessamento do racismo nas mulheres e nas populações negras:

Que, no Brasil, as mulheres negras sempre foram e continuam sendo mais vitimadas pelo racismo que seus correspondentes masculinos. E que isso é culpa do racismo que estruturou a nossa sociedade desde os tempos coloniais, e ainda permanece vitimando boa parte do nosso povo. Que a culpa disso se deve também ao machismo, que impede as mulheres de desfrutar o que elas mesmo produziram e produzem... (p.127).
Em síntese, a obra criada pelo autor é um retrato claro e palpável das problemáticas sociais e dos problemas advindos da ausência de conhecimento de um povo acerca da real cultura brasileira, que, como sabemos, é fruto da miscigenação dos povos e da caracterização única criada pelos vínculos e pelos elos que alimentam a população do Brasil como um todo. Uma obra provocativa e apimentada para leitores ávidos em busca de uma reflexão e de uma leitura extremamente prazerosa.

O AUTOR

Nei Lopes nasceu em 1942, no subúrbio carioca de Irajá. Ex-advogado, destacou-se como compositor de música popular e depois como escritor, notadamente com os romances Rio Negro, 50 e O preto que falava iídiche, e com os contos de Nas águas desta baía há muito tempo, todos pela Editora Record. Acumula publicações e premiações, como o 58º Prêmio Jabuti nas categorias Melhor Livro de Não Ficção e Livro do Ano, conquistado com o Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira), escrito em coautoria com Luiz Antonio Simas. Em 2022, aos 80 anos, já doutor honoris causa pela UFRRJ e pela UFRGS, recebeu a mesma homenagem da UERJ e da UFRJ.

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