[REENHA #685] A vida afinal: conversas difíceis demais para se ter em voz alta, de Cynthia Araújo

Autora trata com sensibilidade o tabu da morte e a necessidade de desmistificá-lo.

 APRESENTAÇÃO

A partir de experiências profissionais e pessoais, e de um recorte de sua pesquisa de doutorado com pacientes com câncer metastático, Cynthia Araújo constrói uma reflexão sensível e contundente sobre o viver e o viver sob a perspectiva da morte. Como advogada da União, entre tantas atribuições, ela defendeu o Estado brasileiro em casos de fornecimento de medicamentos caros pelo SUS a pacientes com câncer. Centenas de processos e entrevistas com pacientes oncológicos depois, a autora levanta questões que interessam a cada um de nós, com câncer ou não, em A vida afinal.

Remédios que podem prolongar um pouco a vida de quem espera deles uma cura ou décadas inteiras pela frente — um abrir mão do presente com qualidade pela expectativa de um futuro que tantas vezes não vem. Escolheriam os mesmos tratamentos se soubessem o que realmente podem oferecer? Neste ensaio, o olhar da autora está voltado para as percepções sobre esse tempo a mais de vida de quem está próximo do fim e para a finitude que paira no ar de cada um. Sua escuta em depoimentos no Brasil e na Alemanha a conduzem pelo tortuoso caminho dos sentimentos, das emoções e das ações de quem não tem mais tanto tempo entre os seus afetos e sonhos.

RESENHA

A vida afinal é um livro escrito pela escritora e advogada Cynthia Araújo, publicado pela editora Paraquedas, selo da editora Claraboia.

O câncer é uma das doenças que mais matam no mundo. É conhecido por possuir tratamentos, mas não uma cura definitiva. Os medicamentos e as tecnologias atuais são, em sua maioria, uma tentativa de salvar a vida do paciente, o que nem sempre ocorre, levando em consideração o grau de avanço da doença pelo corpo. Um câncer metastático que está no auge de sua evolução requer paciência, compreensão e uma metodologia diferente das convencionais para o tratamento, não para a cura. Expor ao paciente de forma que ele entenda que está vivendo seus últimos dias é um dos processos mais complexos e difíceis da atualidade.

No Brasil, os registros dividem-se entre câncer de colon, próstata, mama e pele. Há, segundo estatísticas, 192 novos casos de câncer entre os homens a cada 100.000 habitantes, e entre as mulheres a taxa é de 179 casos a cada 100.000 habitantes. Em síntese, 51,4% para os homens e 48,6% para as mulheres.

A morte é um tabu. A única certeza que temos na vida é que ela um dia acabará, não importa o que você pensa sobre a vida ou como ela terminará, o fim chegará para todos. Cynthia desenvolve em sua obra uma perspectiva que ilumina os pensamentos e reflexões acerca da morte. Desenvolvido através de uma tese de doutorado, a obra desvendará os pensamentos acerca da morte e a ressignificação da vida durante diagnósticos ou vivência de câncer e doenças em estado terminal. Para a autora, realizar planos desmedidamente sem refletir sobre o caráter imprevisível da vida é uma forma de limitar o ser humano a viver a vida com mais afinco e verdade.

Para a autora, o mais necessário durante o progresso da doença é a clareza e exposição dos reais acontecimentos acerca da finitude da vida, preparando a pessoa para o momento cautelosamente, criando assim, a certeza de uma morte digna. Desta forma, o paciente pode se preparar para viver sonhos e metas realistas, não se pautando na incerteza do amanhã ou de uma cura que não virá. Entender que se está nos últimos dias ou meses de vida é crucial para se viver uma vida com mais afinco.

A autora descreve como seu papel como advogada da união influenciou sua decisão em abordar este tópico em uma tese de doutorado: “minha pesquisa investigou o papel da esperança em casos de doenças graves e refletiu sobre como a ilusão de sobreviver e projetar um futuro pode desviar a atenção do viver o presente da melhor forma possível (p.21).” Neste mesmo relato, a autora fala sobre como os processos de solicitação de medicamentos para tratamentos avançados de câncer eram previsíveis e todos com estado de urgência com características, em sua maioria, de metástase. Isso a fez refletir se, de fato, aqueles pacientes acreditavam mesmo em uma possibilidade de cura ou melhora. Como no caso de alguém na casa dos trinta anos que está se tratando com o terceiro quimioterápico, se realmente acreditava em uma melhora, ou no caso de uma idosa de oitenta anos com um tumor agressivo em uma condição tão frágil de vida e saúde realmente desejava receber mais tratamentos.

Seguindo o raciocínio, a autora declara que uma fala de um colega de profissão, o Dr. José Luiz Nogueira, acendeu em si uma confirmação de que suas teorias estavam certas. Em determinado momento de uma conferência, ela perguntou ao doutor sobre os medicamentos que eram liberados para os pacientes com câncer, e ele respondeu: “Olha, esses medicamentos que o senhor leu aqui, o paciente vai morrer. Todos. Com ou sem medicamento. Não tem mágica, não tem jeito, são pacientes com câncer em estágio avançado, metastático, péssimas condições. (p.21)”.

A tecnologia e os inúmeros tratamentos e medicamentos existentes não fomentam maior recuperação ou regressão para diversas doenças, mas podem, em suma, melhorar, mas não agir com efeitos ou milagres nos pacientes. Quando pensamos na morte — e pensamos raramente — sempre pensamos que ela chegará apenas para o idoso e para o debilitado ou adoecido, mas ela chega para todos, e pode ser em qualquer momento, e ter ciência da finitude da vida é uma forma de aproveitar todos os dias como se fosse o último, porque um dia será. E assim como rejeitamos a ideia de proximidade e noção da morte, rejeitamos diagnósticos de doenças e a previsibilidade da aproximação da morte próxima de nós — família, amigos, cônjuges, filhos, e nós mesmos.


Mesmo jovens. Mesmo jovens demais.

Mesmo saudáveis. Mesmo saudáveis demais.

Idealizamos que quem morre é sempre o outro. Até que não é mais.


Em síntese, a obra de Cynthia Araújo abre precedentes para um debate acerca da vida através da reflexão na morte, através do poder de valoração do dia-a-dia e da companhia de quem amamos, pois cada instante pode ser o último. A obra também questiona o papel do poder público, dos familiares e amigos durante o processo de descoberta e vivência de cânceres, em especial os metastáticos, em relação à exposição da verdade para o acometido pela doença. As reflexões também pautam-se na esperança que se é fomentada por promessas e omissão de informações para os pacientes, sejam por protocolos ou por pedido dos familiares. A vida afinal é uma obra poderosíssima que reflete a finitude da vida e o papel ético em relação à morte ao processo de vida nos últimos dias do paciente. Uma obra poderosa e necessária.

Sobre a autora

Cynthia Pereira de Araújo é advogada da União, membro da Advocacia-Geral da União desde 2009, e coordenou a atuação contenciosa na área de saúde de Minas Gerais (2014-2015). Mestre e doutora em Direito pela PUC-Minas, sua tese, Existe direito à esperança? Saúde no contexto do câncer e fim de vida, foi indicada pelo programa de pós-graduação da PUC-Minas ao prêmio Capes de Teses 2020. Em 2021, foi convidada para expor sua pesquisa no 9º Simpósio Internacional Oncoclínicas e Dana Farber Cancer Institute.

Nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e mora em Belo Horizonte, em Minas Gerais, com o marido Daniel e a filha Beatriz, para quem compôs a música “Beatriz II”, lançada em 2022

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