[RESENHA #683] Humano, de Yan V.S. Machado

Arte gráfica / Este livro merece estar em um quadro, para que todos possam ver sua beleza.

APRESENTAÇÃO

Milênios atrás, os gregos avisaram: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas duvido que alguém consiga ir até as profundezas de si e voltar para contar a história. Nós somos o grande mistério, escondendo nossas faces de nós mesmos e dos outros. Fingimos saber quem fomos, somos e podemos ser a cada minuto do dia, porém basta parar e refletir um pouco, e logo não queremos pensar mais. Talvez não exista nada a temer mais do que espelhos. Os reflexos que estão fora e, principalmente, os que estão dentro de nós. Somos fortes e fracos, tão complexos, mas tão simples. Rimos, choramos, nos apaixonamos com a mesma facilidade com que quebramos. No fim, somos humanos, e isso basta para dormirmos a noite, mesmo quando descobrimos que os monstros não estão embaixo, e sim em cima das camas. Não tenho ideia de como você lerá esses versos, se vão te fazer companhia em uma noite fria ou no calor de um ônibus lotado. Não sei se te tocarão com o mesmo significado que tinham quando brotaram de mim, porém não é essa a mágica da coisa? 

RESENHA

Humano, palavras lapidam pedaços de nós é uma obra de Yan Victor Silva Machado, também sua primeira obra. Publicado pela Alma, selo de poesia da editora Flyve, a obra tem como foco a análise da psiquê humana por meio da poesia. A obra se divide em quatro partes, que somam entre si uma unidade de sentido. O recurso psicológico adotado nas palavras do autor é reflexo do percurso metodológico do curso de psicologia que ele cursa.

Como descrito na apresentação da obra, este livro é uma busca pelo reconhecimento e conhecimento do eu interior. As poesias giram em torno dos mistérios que envolvem a tomada de decisão humana, bem como os caminhos obscuros e os percursos adotados perante a vida. A obra também analisará de forma concisa e objetiva os medos e os anseios da mente humana. A primeira divisão da obra, intitulada “monstros em nós”, é uma análise profunda da tomada de decisões e caminhos da mente humana por meio de erros, fracassos ou escolhas mal resolvidas. Como dito no poema “vozes”, “tenho medo que me destrua. A voz que escuto parece não ser sua”. Essa é uma confissão autodeclarada de alguém que está com problemas mal resolvidos em relação a si próprio e ao descontentamento do fim de uma relação. O desfecho de um grande ápice amoroso. Assim sendo, sua problemática segue o assombrando em “esse eco só vai continuar”. O problema descrito no poema de abertura segue sendo explorado no poema seguinte, “solos de vidro”, onde o autor faz alusão a uma flor que migrou do solo para um solo carregado de vidros, onde, claro, não pode florescer, pois, como o poema se finaliza, “solos de vidro não são para flores, pois solos de vidro não guardam amores”. Levando em consideração que toda a primeira parte carrega um forte sentimento de perda de identidade, de amor e de abandono, podemos, de fato, concluir que este capítulo remete a uma série de reflexões profundas acerca das relações humanas, das dependências emocionais e do agravamento de sentimentos por delírios e problemas emocionais, que, em síntese, precisam ser tratados, mas que, poeticamente falando, são lindos e intensos.

A segunda parte da obra intitulada “metanoia” é uma parte que aborda o processo de ressignificação e superação. O poema de abertura, “estações”, é a descrição perfeita de como somos acometidos por reflexões e pensamentos que moldam quem somos durante momentos específicos da nossa vida, como durante o processo de conhecimento de alguém para se amar. O poema nos fala sobre alguém que está precavido emocionalmente. Ele entende que essa pessoa trouxe um frescor e uma novidade que antes se fizeram ausentes, mas ele também entende que todo frescor pode se tornar em frio ou dependência. Então, diferente do narrado anteriormente no primeiro capítulo, aqui, há uma poderosa introspecção poética sobre amor próprio: “uma andorinha só pode não fazer verão, mas um coração bem ancorado não vai ser despedaçado por uma simples estação”. Já o poema ''ciclos'' é o reconhecimento de que tudo se finda, e claro, uma poderosa reflexão de que ''um círculo que se encerra traz renovação''.

A terceira parte da obra, “fragilidade”, fala sobre os resquícios de alguém maltratado pelo amor. O eu lírico do poema traz em suas palavras reflexões acerca dos impasses emocionais tomados pela vida, que tornaram as relações mais complexas e baseadas em insegurança. No poema “quebrado”, o autor nos diz: “Mas você me fez assim, deixou marcas em mim, me acorrentou, e o pior de tudo é que você me amou”. As marcas das relações passadas também ecoam por todos os poemas e se fazem ainda mais presentes no poema “anacronismo”: “Não consigo parar, não consigo seguir, só consigo sentir o presente esvair” e, novamente: “Mesmo quando devia me sentir completo, isso sempre acaba parecendo incerto”.

O quarto e último capítulo da obra, intitulado “histórias”, é o resumo de todos os outros efeitos. Aqui, o autor tece belíssimas reflexões de resiliência e autocrítica: “Quem construiu os degraus do passado?”; "Cada um carrega o seu próprio portal, um caminho só seu, um mundo individual”. Em síntese, o autor cria uma atmosfera altamente inflamável, seus poemas penetram a alma e o sentimento de impotência e fraqueza. Sua escrita é poderosa e verossímil, e não há o que se dizer, apenas sentir. Certamente, espero que o autor trilhe caminhos sob essa mesma ótica e perspectiva, pois brilhará na poesia como nunca alguém brilhou. Uma leitura apaixonante.

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