[RESENHA #723] Humilhados e ofendidos, de Dostoiévski

Publicado em 1861, após dez anos de exílio na Sibéria, Humilhados e ofendidos ocupa uma posição-chave na produção de Fiódor Dostoiévski. Por um lado, é sua obra mais ambiciosa até o momento, na qual revisita e leva ao limite as suas concepções de literatura e sua visão dos males da sociedade. Por outro, suas páginas abrem o caminho para uma forma de romance que vai ganhar corpo nos grandes livros de sua maturidade, e não por acaso o leitor encontra nesta obra conflitos e personagens que parecem prefigurar suas criações posteriores. Para compor a trama de Humilhados e ofendidos, romance no qual deposita enormes esperanças, Dostoiévski coloca no centro da ação a figura do escritor Ivan Petróvitch, que é também o narrador do livro, e cuja vida guarda tantas semelhanças com a sua que não é equivocado ler certas passagens como um ensaio de autoficção avant la lettre ― gesto arriscado, que não foi plenamente compreendido pela crítica da época. Os leitores, porém, não tiveram dúvidas. Desde sua primeira aparição como folhetim no número inicial da revista O Tempo, o romance fascinou o público, que reconheceu ali um modo inédito de narrar, capaz de trazer à luz os sentimentos mais obscuros com uma intensidade nunca vista ― intensidade que encontrou sua equivalência precisa na tradução de Fátima Bianchi e nas gravuras de Oswaldo Goeldi.

RESENHA


A obra de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski é geralmente dividida em duas fases pelos críticos literários e estudiosos do escritor russo. A primeira fase ocorreu antes de sua prisão na Sibéria no início da década de 50 do século XIX, quando escreveu os romances: Gente pobre, O duplo, Noites brancas e Niétotchka, além de alguns contos e novelas. A segunda fase começou após seu retorno para São Petersburgo em 1859, após ter passado aproximadamente cinco anos preso na Sibéria, submetido a trabalhos forçados por ter supostamente feito parte de um grupo que pretendia depor o Czar Nicolau I. Após esse período, cumpriu mais quatro anos de serviço militar compulsório no Cazaquistão. Essa fase é considerada sua fase mais criativa e madura, com a publicação de suas obras-primas, os romances: Crimes e Castigo, O idiota, Os demônios e Os irmãos Karamazov. Contudo, é importante salientar uma fase que poderíamos considerar de transição em sua obra, que inclui um livro autobiográfico - narrando suas experiências e impressões da prisão -, Recordação da casa dos mortos (com seus primeiros capítulos sendo publicados em forma de folhetim, entre os anos de 1860 e 1861), e os romances: Humilhados e Ofendidos (também publicado em folhetim no ano de 1861) e Notas do subterrâneo (1864 – este, inclusive já é considerado por muitos críticos como a obra que inaugura a brilhante segunda fase do autor, que publicaria dois anos depois seu primeiro grande sucesso literário após o retorno a São Petersburgo, o livro Crime e Castigo).

O romance Humilhados e Ofendidos, que também recebeu uma ótima acolhida de crítica e público, possui uma forte conotação autobiográfica (como alguns outros romances de Dostoiévski, citando como exemplo O jogador). Seu personagem principal e narrador da história, Ivan Petrovich, vulgo Vania, é um escritor pobre, que teve sua primeira obra bem recepcionada pela crítica (no romance o narrador cita B, clara alusão a Belinski, grande crítico da época.

Neste romance, já podemos notar, de forma embrionária, vários dos principais elementos que imortalizaram a obra de Dostoiévski. Os primeiros passos de sua narrativa polifônica, onde as vozes dos personagens rivalizam com a do narrador para construir a trama e apresentar ao leitor o íntimo de suas almas, já são perceptíveis. A análise psicológica que tanto caracterizou a obra do autor russo também se faz presente. Nesta obra, Dostoiévski utiliza, assim como na maioria de seus livros, como modelo o romance realista da primeira metade do século XIX, para criar uma base para suas análises psicológico-dialéticas do íntimo de suas personagens, contraditórias e atormentadas por natureza. A crítica social, porém, ainda é o ponto principal do romance, resgatando, de uma certa maneira, suas preocupações já demonstradas em Gente Pobre. Contudo, em Humilhados e Ofendidos, a crítica social é permeada por personagens que não se contentam em apenas fazer os papéis de humilhados, de ofendidos, ou de algozes e prepotentes senhores aristocráticos. A narrativa dostoievskiana nos coloca a descoberto os dramas, as contradições, os desesperos e as angústias dos personagens. A diferença é que neste romance Dostoiévski ainda não dá o protagonismo à sua psicologia-dialética, sua preocupação maior ainda é com a denúncia das humilhações e ofensas sofridas pelas pobres gentes, por parte de uma aristocracia decadente, mas ainda poderosa, opressora, e arrogante.

De um lado, temos os humilhados e ofendidos: o casal Ikhmeniev, que devido à ingenuidade e bondade de Nikolai Serguievich Ikhmeniev, se vêm destituídos de sua propriedade, através de um processo jurídico pernicioso e repleto de falsas acusações; Natália Nikolaievna Ikhmeniev, que para os padrões da época havia desonrado sua família, abandona o lar por amor a um homem que, por fraqueza de caráter, a submete a situações de profundas humilhações; Ivan Petrovich, o narrador, que percebe que ser um escritor conhecido e elogiado, não o faz superar as barreiras sociais, apesar de frequentar, esporadicamente, o meio aristocrático que despreza. Sua fama não lhe trouxe riqueza e tampouco o privou das humilhações e ofensas dos poderosos, como veremos em suas relações com o príncipe Valkovskii; Nelly, a órfã maltrapilha, que apesar de ser levada a pedir esmolas na rua, traz em si uma altivez quase nobre (e o motivo disso só descobriremos nas páginas finais); e até mesmo Masloboiev, que através de sua esperteza, golpes e arranjos, consegue transitar em um universo diferente daquele a que pertence por origem, mas que também, ao final, é humilhado e ofendido pela nobreza aristocrática que tanto menospreza. Por outro lado, temos os opressores, os que se utilizam de sua posição, de direito e de herança, para humilhar e tripudiar dos menos favorecidos de berço e de fortuna: o príncipe Piotr Alexandrovich Valkovskii; seu filho Aliosha; e todo um séquito de condessas, condes e princesas que gravitam em torno de uma elite aristocrática restrita e decadente, na qual, não raramente, os casamentos por interesses financeiros são a única forma de manterem seu “status quo”.

A história de "Humilhados e Ofendidos" oscila entre dois eixos centrais. O primeiro é o drama de amor entre Natasha e Aliosha, e consequentemente as tentativas do príncipe Valkovskii de desestabilizar o casal e convencer seu filho a se casar com Kátia, enteada da condessa - velha amiga do príncipe - e herdeira de grande fortuna. O segundo eixo é a história de Nelly, órfã que se liga afetuosamente a Vania. Durante a narrativa, nos compadecemos com a dupla humilhação de Ikhmeniev, que além de ver sua filha desonrada e ameaçada pelo príncipe, é vítima de um terrível e injusto processo jurídico perpetrado pelo mesmo príncipe. Também nos tocamos com a doença e abandono da pequena Nelly, e finalmente com a estoica abnegação de Natasha. Mas é nos diálogos e no sutil escrutínio das complexas almas dos personagens que o romance ganha seu valor literário. O personagem Aliosha é sem dúvida um dos mais repulsivos da história da literatura. O escritor russo conseguiu criar um personagem execrável, sem caráter e abjeto, mas que contudo possui uma alma boa, pura, um coração ingênuo. Entretanto, sua pureza e ingenuidade são levadas ao paroxismo, tornando o personagem odioso, mimado e irresponsável aos olhos do leitor. Ser bom, ter um bom coração, não faz sentido algum se o indivíduo não tem força de vontade e caráter para fazer a coisa certa e moralmente correta. É o que se

Mas é o pai de Aliosha, o príncipe Valkovskii, o grande personagem do livro. Nele vemos antecipado grandes temas que Dostoiévski irá discutir mais aprofundadamente em seus futuros romances. O príncipe reúne em si todas as características deletérias que o escritor russo vê no estereótipo da decadente aristocracia russa: a dissimulação, o egoísmo, a hipocrisia, o cinismo. O príncipe encarna a antítese cristã. Todos os seus atos são premeditados e encobertam interesses pessoais. O perfil de sua personalidade vai sendo desvendado aos poucos, através do brilhante uso que Dostoiévski já faz da polifonia. Isso se dá através dos longos diálogos do príncipe e Natasha; dos diálogos entre Aliosha e Natacha, onde Aliosha reproduz as conversas que tem com o pai que ele admira e venera, e devido à sua ingenuidade que beira a estupidez, mas que em momento algum suplanta sua arrogância nobiliárquica, ele se deixa enganar pela argúcia maldosa do príncipe; mas é principalmente nos diálogos do príncipe com Vania que percebemos, ou melhor, que entrevemos a alma negra do príncipe, até que finalmente ele retira teatralmente sua máscara ao convidar o narrador para jantar, assim que saem de uma visita à casa da condessa. Depois de beber bastante, o príncipe vai aos poucos colocando as cartas na mesa.

"Humilhados e Ofendidos" é uma obra-prima da literatura russa. Dostoiévski, com sua narrativa polifônica, consegue criar personagens complexos e profundos, que nos fazem refletir sobre a natureza humana e a sociedade em que vivemos. O romance é uma crítica contundente à aristocracia russa decadente, que oprime e humilha os menos favorecidos. A história é envolvente e emocionante, e os diálogos são brilhantes. O livro é uma leitura obrigatória para quem aprecia a boa literatura.

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