[RESENHA #1000] Escamas de Mil peixes, de Maitê Lamesa

 





Escamas de Mil Peixes é cardume de poesias escritas entre 2009 e 2023, entroncamento de rios que correram apartados no tempo e no espaço, até serem transpassadas por uma lâmina que afia nos dentes a vontade de falar e que afina a voz de um peixe solitário. É dessa forma que Maitê dosa as diversas forças necessárias para o arremesso dos poemas, escamas que se propõem a refletir as incontáveis nuances da poesia: a coragem da escrita, subjetividades que se cruzam com a coletividade, amores, dissabores, o correr do tempo, a voz feminina e maternal, o mar e a morte. São poemas que se revelam nas margens inacessíveis, na superfície embriagante do oceano e, sobretudo, nas profundezas de um rio turvo, na pele de peixe. Não são paisagens paradisíacas que estão em jogo, mas as paisagens para além do alcance da vista: os vales escondidos, as fossas abissais, as cavernas de morcegos, locais onde se opera um sutil descolamento a partir do encontro entre essa paisagem (realidade) e o pensamento. É um convite à poesia como a outra margem do rio, das pessoas, da vida e que, assim como ele, segue inventando caminhos possíveis por onde correr.

RESENHA






Escamas de Mil peixes é o primeiro livro da autora jauense Maitê Lamesa. A obra, descrita pela autora como um cardume de poesias é um convite à experimentação. Aqui, Lamesa, reúne textos de diferentes épocas de sua vida, em um forte movimento de coragem [metaforicamente acionada como o salto de um peixe nas águas de um rio]. A obra é uma miscelânea simbólica orientada por eixos poéticos que descrevem suas nuances entre metáforas em relação aos peixes e o movimento das águas que narram a vida como poemas que vão contra a maré, como correntezas que seguem um fluxo inconstante, como felicidade, luto, maternidade, crescimento, dor e mememórias.

A obra é dividida em sete capítulos: Os poros por onde nascem as escamas; pele de peixe; nadando contra a correnteza; um peixe de água salgada; descamado; desova; lambaris e um rio marrom onde moram os peixes. A voz do peixe usada pela autora é uma forma de trazer a tona em sua obra uma voz marginalizada e sufocada, quanto para descrever a coragem de descer o rio em uma jornada.

Nas palavras de Tatiana Lazzarotto, escritora e jornalista: O livro é dividido em muitas partes – muitas escamas – e há muitas mulheres em suas páginas. Uma que lava a louça, outra que observa a chuva. Ou uma mulher-estátua, que testemunha o esquecimento. Mas em “Desova”, quem canta é a indelegável mãe e todas as nuances de suas três letras, e é à Teresa que este livro é dedicado. Testemunhemos a poesia de Maitê como a multiplicação dessas mulheres-cardume, por meio de suas imagens-milagres. Uma poeta que nasce assim é um acontecimento.


Confira alguns trechos do poema da autora:


Campo de lavandas

é como andar por um campo de lavandas

escrever estas linhas recuadas

frutos de um pensamento único

uma sensação inacabada



recorte de sonhos em papel colunado

com emoções preenchi um dos lados

o outro resta branco com reminiscências

é o fundo do armário



as bolinhas brancas de naftalina

são as entrelinhas das ideias minhas

e o que não escrevi, já está escrito

num dia porvir, n´algum canto vivido



uma só coluna basta

para que flutuem as miragens

junto com as lavandas pendentes – lilases

esbanjando a alma calma

de quem faz poesia

para que balancem com o vento



depois de tantas elocubrações

em puro, em puríssimo devaneio

resta sempre uma coluna aberta

esperando as palavras certas

costuradas às emoções no meio




O poema Campo de lavandas é uma metáfora sobre o processo criativo do poeta, que compara a escrita de versos com o andar por um campo de flores aromáticas e coloridas. O poeta expressa seus sentimentos e pensamentos em uma coluna de papel, deixando a outra em branco para representar o que ainda não foi dito ou vivido. As bolinhas de naftalina são as entrelinhas, as ideias que não são explicitadas, mas que estão presentes na poesia. O poeta também fala das miragens, as imagens que surgem na sua mente e que se misturam com as lavandas, símbolo da calma e da beleza. O poeta reconhece que sua obra é fruto de um devaneio, de uma fantasia, mas que sempre há espaço para novas palavras e emoções. O poema é uma celebração da poesia como forma de expressão e de arte.




da (r) dos

Lançando dados

sobre o tabuleiro

são dardos que atiro

no alvo certeiro



Jogo o jogo

e pego em armas

se preciso for



Sempre foi assim

se não estou em guerra

estou nos jogos de azar

O poema da (r) dos é uma reflexão sobre a vida como um jogo de riscos e desafios, onde o poeta lança dados e dardos, buscando acertar seus objetivos. O poeta se mostra disposto a lutar e a se defender, se necessário, mas também reconhece que sua sorte depende do acaso. O poeta usa a repetição da letra R e do som /d/ para criar um efeito sonoro de força e determinação. O poema também sugere uma contradição entre a guerra e os jogos de azar, que podem ser vistos como formas de violência e de diversão, respectivamente. O poeta afirma que sempre viveu assim, entre a tensão e a aventura, sem saber o que o destino lhe reserva. O poema é uma expressão da coragem e da incerteza do poeta diante da vida.

O poema “Peles mortas” expressa a sensação de vazio e desilusão após o fim de um relacionamento amoroso. O autor usa a metáfora da poeira para representar os vestígios da união que se desfez com o vento, ou seja, com a força das circunstâncias. A poeira paira no apartamento, simbolizando a memória e a nostalgia que ainda persistem no ambiente. O autor também usa a palavra “inútil” para mostrar o quanto ele se sente frustrado e desesperançado com a mistura de suas peles mortas, que não gerou nada de positivo ou duradouro. O poema transmite uma atmosfera de tristeza, solidão e desapego.

O poema “Ofício mãe” é uma homenagem à maternidade e ao papel da mulher na sociedade. O autor usa várias imagens e metáforas para exaltar a força, a dedicação e a importância da mãe, que é vista como uma caçadora, uma guardiã, uma oficiala, uma soberana, uma credora, uma horta e uma aorta. O autor também mostra as dificuldades e os desafios que a mãe enfrenta no seu cotidiano, como o cansaço, o casamento, a cria, as costas costuradas, o colo ocupado, os sustentáculos, as articulações, os músculos, os tendões e as fibras do coração. O poema transmite uma atmosfera de admiração, gratidão e reconhecimento pelo ofício mãe, que é o responsável pela renovação, pelo futuro e pelo legado da humanidade.

O poema “Mulher-peixe” pode ser interpretado como uma metáfora da identidade e do conflito de uma mulher que se sente dividida entre dois mundos: o das águas e o do ar. Ela é uma sereia, uma figura mítica que representa a sedução, a beleza e a ambiguidade. Ela deseja respirar o ar, mas ao mesmo tempo teme perdê-lo. Ela se arrisca a sair das águas, mas se afoga na tentativa. Ela é um peixe fora d’água, uma expressão que significa alguém que não se adapta ou não se sente à vontade em um ambiente. O poema transmite uma atmosfera de angústia, solidão e incompreensão.

A obra fala de diversos assuntos como a escrita;. maternidade; luto ; sentimentos internos; resiliência; força; coragem; memórias; solidão e calmaria. Como toda poesia lúdica, estas, por sua vez, nos possibilitam uma gama de inúmeras interpretações que nos conectam com suas linhas como em uma onda interminável onde uma maré se alterna conforme o movimento das águas.

Uma obra atemporal.

A AUTORA

Maitê Lamesa é natural de Jaú/SP, e atualmente reside em São Paulo, capital. Formada em Direito (Universidade Estadual de Londrina) e mestra em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP), assumiu a escrita em 2022, quando a publicação tornou-se urgência face a face, face à fase de silêncios agudos: da maternidade, da pandemia e do campo, onde morou durante esse período. Integra o portal Fazia Poesia e o Coletivo Escreviventes. Este Escamas de Mil Peixes é um livro de poesia e, também, seu livro de estreia.

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