[RESENHA #1006] Os afegãos: Três vidas de um país marcado pelo Talibã, de Åsne Seierstad

Foto: Colagem Digital / Divulgação


APRESENTAÇÃO


Em Os afegãos, a renomada jornalista Åsne Seierstad mergulha na intricada tapeçaria da história do Afeganistão. A partir de três histórias individuais, conhecemos as fraturas políticas e sociais de um país marcado pelo extremismo e pela luta pela liberdade. 


Conhecida por seu estrondoso best-seller O livreiro de Cabul, de 2002, Seierstad retorna ao território afegão duas décadas depois, esmiuçando a tumultuada relação entre o país e o Talibã, grupo fundamentalista islâmico que voltou ao poder em 2021. Com Os afegãos, a jornalista norueguesa elabora uma investigação histórica e, ao mesmo tempo, constrói o complexo retrato de uma nação a partir de três vidas, três gerações que representam pontos de vista únicos.          


Através de entrevistas e testemunhos coletados pela autora, conhecemos as histórias que personificam os últimos cinquenta anos do Afeganistão: Jamila compreendeu desde a infância que precisaria arriscar tudo para garantir seu direito de estudar. A partir de uma interpretação própria do Alcorão, tornou-se uma proeminente ativista dos direitos das mulheres, sobretudo na área da educação. Bashir fugiu de casa aos 12 anos com o sonho de se tornar um combatente do jihad (a guerra santa). Já adulto e um comandante respeitado, ele era uma das principais lideranças talibãs quando o mundo testemunhou, em 2021, a Queda de Cabul. Ariana, uma jovem dos anos 2000 que cresceu em plena abertura democrática, era uma estudante de Direito prestes a se graduar quando o Talibã retomou o poder e começou a mitigar, de maneira ostensiva, a educação das meninas e mulheres.


Jamila e Ariana testemunham, em primeira mão, a fragilidade dos direitos das mulheres em regimes autocráticos. Não é por acaso que a opressão das mulheres, a religião e o feminismo são temas centrais em Os afegãos, e que estes sejam os primeiros pontos combatidos pelo novo regime.


Através desse retrato cindido, complexo e multifacetado, Os afegãos apresenta a história recente do Afeganistão, encarnada nas vivências, crenças e lutas individuais de seu povo, até os dias atuais.



RESENHA


Foto: Divulgação / colagem digital



Os afegãos é um livro de não-ficção escrito pela escritora e jornalista norueguesa Åsne Seierstad, publicado no Brasil pela editora Record, selo de não-ficção do Grupo Editorial Record. A obra retrata a vida de três pessoas que vivem no Afeganistão que tiveram suas vidas afetadas diretamente pela ação do talibã: Jamila, Ariana e Bashir.


A autora conta as histórias daqueles que fugiram do Talibã e daqueles que ficaram para trás. É a história de como uma menina a quem foi negada a educação usa o Islã para lutar pelos direitos das mulheres (Jamila). Sobre um menino que foge de casa para se tornar talibã e lutar numa guerra santa (Bashir). E uma menina que nasce quando as forças ocidentais ocupam o país e que acredita que depois de estudar direito poderá trabalhar e fazer parte da sociedade (Ariana).


A obra se inicia abordando a vida de Jamila desde seu nascimento. Ela nascera de uma família conservadora e extremamente religiosa que evitava a todo custo qualquer prática que colocava sua fé em julgo, como a medicina, que era tradicionalmente negada pelo pai, que, em situações de doença, recorria sempre à religião, rezas e orações. Jamila nasceu e se desenvolveu com marcas permanentes em sua mobilidade por conta do desenvolvimento da poliomielite na infância, o que a fez se arrastar pelo chão até os seus cinco anos de idade e a se acostumar ver o mundo do chão.  A família buscou, por anos, uma solução para o problema que tocava as pernas da filha através da religião, o que claro, não funcionou. A preocupação principal não era necessariamente a saúde da filha, mas os problemas que uma filha aleijada causaria nos planos da família durante a negociação de seu casamento, afinal, quem gostaria de se casar com uma mulher aleijada? O pai também se mostrava preocupado com a filha no quesito educação, visto, que, ela sempre estivera inclinada à frequentar a escola e adquirir conhecimento e leitura. Apesar do pensamento retrógrado do pai em relação à educação, ele, de certa forma, jamais privara Jamila de frequentar a escola.



A leitura perturba a mente e causa frustrações, provoca pensamentos que meninas não deveriam ter, o conhecimento gera angústia. O valor que tem para um eventual casamento diminuiria. Afinal, tudo girava em torno disso. O valor delas, o valor de mercado. (p.17)



A educação de Jamila fora pautada na possibilidade de seu casamento futuro, assim como de suas irmãs. Desta forma, nenhum homem de fora da casa poderia sequer saber seus nomes, uma vez, que, isso acarretaria em uma nódoa para família. Era portanto, necessário resguardar as filhas e controlar o que se era possível controlar para um casamento oportuno num futuro não tão distante. Os homens de fora não podiam sequer saber da existência das irmãs de Jamila, tampouco falar com elas ou saber seus nomes. Em visitas, todas se sentavam no chão de forma silenciosa, não lhe era permitido falar além dos balbucios e dos cochilos feitos pelos arredores da casa.


Com o tempo, Jamila inclinou-se e começou a andar por conta própria, ela sabia que o futuro dos seus irmãos era herdar os bens do pai, das irmãs o casamento e o dela, meramente permanecer com os pais, uma vez que jamais se casara por sua condição frágil e mobilidade reduzida. O tempo foi passando e uma nova história foi se erguendo, a de Ibrahim, um rapaz que atuava nos negócios de primeira instância e necessidade: caixões, xales, roupas e etc. Com o advento da guerra, Ibrahim, que sonhava em servir na guerra, fora batizado de Bashir, mensageiro da alegria.

 

Com o surgimento do estado de alerta provocado pela guerra, tornou-se preocupante a situação com a morte vinda de todas as direções, ar e terra.


A morte geralmente vinha de cima. Quando se ouvia o barulho do avião, ou silvo cortando o ar, já era tarde demais [...] Famílias que tentavam correr durante um ataque eram carbonizadas; grupos inteiros de crianças amontoadas atrás dos casebres eram reduzidos a cinzas [...] A morte também vinha do chão. Minas terrestres eram ardilosamente instalada em locais nas encostas das montanhas, ao longo das estradas e margens de rios (p. 29 - grifos meus).


Após a introdução de Jamila e Bashir, a autora nos convida a conhecer Ariana, uma garota de sete anos que cresce observando o horror da guerra em meio aos ensinamentos arcaicos dos poderes reduzidos das mulheres na sociedade, e que, para tanto, decide estudar direito para fazer parte de forma mais íntegra e participativa da sociedade, ou seja, tanto ela quanto Jamila acreditam no poder da educação para erradicar o veneno da sociedade para se livrarem das amarras do machismo e das leis que beneficiam em todos os aspectos o machismo.


A obra de Åsne Seierstad é uma poderosa e comovente narrativa que nos leva de volta ao Afeganistão em um momento de grande tumulto e mudança. A autora consegue captar a complexidade e a humanidade por trás das histórias de Jamila, Bashir e do homem desconhecido, oferecendo uma visão profunda e sensível da realidade afegã. Seu olhar perspicaz e sua habilidade de dar voz aos personagens tornam este livro uma leitura essencial para quem busca entender as nuances e desafios enfrentados por aqueles que vivem em meio ao caos da guerra e do extremismo. Mais do que uma simples reportagem, este é um relato que ecoa muito além das páginas, tocando o coração e a consciência dos leitores.

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