Resenha: Assassino da lua das flores, David Grann

Foto: Arte digital

 

APRESENTAÇÃO

Nos Estados Unidos dos anos 1920, as pessoas com maior renda per capita do mundo eram membros do povo indígena Osage, de Oklahoma. Até que, um a um, os Osage começaram a ser mortos. As primeiras vítimas são a família de Mollie Burkhart. E isso era apenas o começo, pois logo mais e mais homicídios contra nativos americanos aconteceriam, sempre em condições misteriosas. Nessa parcela remanescente do Velho Oeste, habitada por malfeitores como Al Spencer, conhecido como "o terror fantasma", e onde magnatas e homens do petróleo, como J. P. Getty, fizeram fortuna, muitos dos que ousaram investigar os assassinatos em massa também perderam a vida.

Com o aumento do número de vítimas, o recém-criado FBI assume o caso, e o jovem diretor, J. Edgar Hoover, convoca um antigo Ranger texano chamado Tom White para ajudá-lo. White reúne uma equipe secreta ― que inclui um agente indígena infiltrado na região  ―  e, junto com os Osage, expõe uma das conspirações mais assombrosas da história dos Estados Unidos.

RESENHA


No alvorecer do século XIX, em 1804, o presidente Thomas Jefferson acolheu uma comitiva de líderes Osage que haviam deixado suas terras tradicionais — terras essas que Jefferson acabara de adquirir dos franceses na Compra da Louisiana, e não dos próprios Osage. Os dignitários Osage, imponentes em estatura, muitos ultrapassando um metro e oitenta, destacavam-se entre os presentes na Casa Branca. Jefferson, admirado, referiu-se a eles como “os mais nobres homens que já encontramos”. Ele assegurou-lhes justiça e amizade da nação americana daí em diante.


Contudo, nas duas décadas seguintes, os Osage viram-se privados de seu território, abdicando de quase 100 milhões de acres e sendo relegados a um confinamento no sudeste do Kansas, uma área de aproximadamente 50 por 125 milhas. O governo dos EUA prometeu que essa terra seria deles eternamente. Mas, conforme David Grann revela em seu livro intrigante e perturbador, “Os Assassinos da Lua das Flores”, essa promessa foi igualmente desfeita. Colonos brancos invadiram as terras Osage, conflitos eclodiram e, por fim, a tribo foi coagida a vender seu território por meros US$ 1,25 por acre. Em busca de um novo começo, os Osage se estabeleceram em uma região indesejada do futuro estado de Oklahoma, caracterizada por seu terreno acidentado e solo infértil. Eles adquiriram essa terra por cerca de um milhão de dólares e, astutamente, asseguraram os direitos sobre “petróleo, gás, carvão ou outros minerais” encontrados no subsolo, garantindo assim a posse não apenas da superfície, mas também das riquezas enterradas.


Naqueles dias, a terra dos Osage era um segredo bem guardado, escondendo sob sua superfície rochosa um tesouro negro e viscoso. Apenas os Osage sabiam do petróleo que fluía nas profundezas, um conhecimento que logo transformaria suas vidas. Em 1923, a fortuna jorrou da terra, e a tribo Osage viu uma riqueza de mais de 30 milhões de dólares, uma soma que hoje ultrapassaria os 400 milhões. Eles se tornaram, per capita, os mais abastados do planeta, erguendo mansões e adquirindo carros luxuosos. A riqueza era tão vasta que um escritor da época proclamou: “A cada novo poço perfurado, os Osage enriquecem exponencialmente… Eles estão acumulando tanta riqueza que algo precisa ser feito.”


E algo foi feito, mas não para o benefício dos Osage. O governo federal, sob o pretexto de proteger os Osage de sua própria prosperidade, impôs guardiões para gerenciar suas finanças, rotulando muitos como “incompetentes”. Os de sangue puro eram frequentemente subjugados a essa tutela, enquanto os de sangue misto mantinham sua autonomia. Não demorou para que os Osage se tornassem presas de esquemas de corrupção e casamentos por interesse. Uma mulher branca chegou a oferecer-se em casamento ao Osage mais abastado, prometendo fidelidade e virtude.


David Grann narra esses eventos através dos olhos de Mollie Burkhart, uma Osage de linhagem pura, cuja fortuna atraiu um marido branco. Mas a riqueza não trouxe paz; sua família foi assolada por mortes misteriosas. Sua irmã Minnie sucumbiu aos 27 anos a uma doença enigmática. Anna, sua outra irmã, desapareceu após uma noite de indulgência, mais tarde encontrada morta em um barranco, vítima de um tiro. Charles Whitehorn, outro Osage, teve o mesmo destino. As mortes foram declaradas assassinatos, e a mãe de Mollie, Lizzie, logo seguiu o mesmo caminho, vítima da mesma doença inexplicável que levou Minnie.


O terror não parou por aí. Outra irmã de Mollie pereceu em um incêndio suspeito, deixando-a como a única sobrevivente de sua família imediata. A comunidade Osage estava sob ataque, uma série de assassinatos que ficou conhecida como o Reinado do Terror Osage, e que eventualmente chamou a atenção do recém-formado FBI.


A tragédia continuou com a morte de William Stepson, um campeão Osage, e mais dois membros da tribo, todos suspeitos de terem sido envenenados. Um casal foi assassinado com uma bomba enquanto dormia. Entre 1920 e 1924, mais de duas dezenas de Osage e aqueles que tentaram ajudá-los foram mortos, um período sombrio que manchou a história com a ganância e a violência contra um povo que apenas desejava viver em paz com a riqueza que a terra lhes concedera. Na década de 1920, a aplicação da lei nos EUA era um mosaico de autoridades locais e caçadores de recompensas. Entre eles, o xerife de Osage, Harve M. Freas, era conhecido por sua inércia diante dos crimes contra os Osage. Em busca de justiça, a tribo recorreu a Barney McBride para pedir ajuda federal, mas sua missão terminou tragicamente com seu assassinato brutal.


O FBI, fundado em 1908, ainda engatinhava naquela época, com poucos agentes e uma reputação questionável. A chegada de J. Edgar Hoover em 1924 marcou uma virada, impondo rigor e métodos científicos na investigação. Os assassinatos dos Osage se tornaram o primeiro grande desafio do FBI sob a liderança de Hoover. Tom White foi o escolhido por Hoover para liderar a investigação. Crescido na lei, White e sua equipe disfarçada mergulharam na comunidade Osage, cada um assumindo uma identidade única, desde um criador de gado até um curandeiro indígena.


David Grann, em sua obra, tece essa história com a maestria de um romancista, embora seja um relato verídico. Seu talento como jornalista e escritor brilha ao dar vida aos eventos e personagens, mesmo os mais sombrios, com uma narrativa que captura a essência da época e a complexidade da investigação.


Quando a resolução dos crimes de Osage se desenrola e os verdadeiros culpados são desmascarados, a narrativa não se encerra com a revelação. A surpresa do leitor é apenas o prelúdio para as últimas páginas, onde Grann transcende a narrativa histórica e, com o auxílio dos Osage contemporâneos, expõe uma trama ainda mais sinistra que se estende além daqueles anos de terror. A indignação que se segue é um testemunho da injustiça atroz cometida contra os Osage, um dos atos mais vis perpetrados contra os povos originários deste continente. “A terra está impregnada de sangue”, lamenta Mary Jo Webb, uma Osage que busca entender os crimes de outrora. Grann, com sua escrita incisiva, nos lembra que a história é um tribunal implacável, julgando os atos da humanidade.

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