Resenha: Temporada de huracanes [temporada de furacões], de Fernanda Melchor (Spanish edition)

Foto: Arte digital

APRESENTAÇÃO

Um grupo de crianças encontra um cadáver flutuando nas águas turvas de um canal de irrigação próximo à fazenda La Matosa. O corpo acaba por ser o da Bruxa, uma mulher que herdou esta profissão da sua falecida mãe, e que os moradores daquela zona rural respeitavam e temiam.

Após a descoberta macabra, as suspeitas e fofocas recairão sobre um grupo de meninos da cidade, que um vizinho viu dias antes enquanto fugiam da casa da bruxa, carregando o que parecia ser um corpo inerte.

A partir daí, os personagens envolvidos no crime nos contarão sua história enquanto nós, leitores, mergulhamos na vida deste lugar atormentado pela miséria e pelo abandono, e para onde convergem a violência do erotismo mais sombrio e das sórdidas relações de poder.

RESENHA


Em “Vozes do Vendaval”, a narrativa se desdobra como um coro polifônico, onde cada personagem é um sopro que se une ao vento da história. A trama começa com o relato de crianças que testemunharam um corpo flutuando no canal, e suas vozes se multiplicam, ecoando as experiências e segredos da cidade de La Matosa. Após um devastador vendaval em 78, uma nova tempestade surge, carregada de desolação e desespero, culminando na tragédia da Bruxa. O corpo encontrado torna-se o epicentro da narrativa, um ponto fixo em meio ao caos, capturando as histórias entrelaçadas que o precederam.


Os capítulos avançam com a força de um vendaval, sem dar trégua ao leitor, enquanto as vozes dos personagens se entrelaçam, revelando suas vidas, seus medos e seus desejos mais íntimos. A cada nova perspectiva, a história ganha camadas, e o que parecia ser verdade se desdobra em novas revelações. As personagens são apresentadas em toda a sua complexidade, e suas ações reverberam através das páginas, como raios em uma tempestade.


Fernanda Melchor, em “Temporada de Furacões”, tece uma tapeçaria de vozes que refletem a desesperança e a indiferença de uma sociedade marcada pelo horror. A narrativa é um mosaico de vidas que se cruzam na iminência da destruição, onde a perda da esperança leva ao abismo da violência e da morte. É um retrato cru da condiidade humana, um vendaval de emoções que arrasta o leitor para o olho da tempestade.


“Temporada de furacões” é uma obra que se tece através de um mosaico de vozes, cada uma narrando fragmentos da realidade que se entrelaçam para formar a história de uma cidade marcada pelo destino. Como um vendaval que cresce em intensidade a cada capítulo, as vidas dos personagens são desvendadas, culminando na imagem de um cadáver que simboliza o ápice do desalento coletivo. As vozes subsequentes, como ecos de um coro trágico, revelam as ações e sentimentos que conduziram ao desfecho fatal.


À medida que a narrativa avança, a perspectiva se eleva, retrocedendo no tempo para apresentar os personagens e os laços que tecem a trama, fechando o círculo que, embora selado, parece destinado a continuar girando. No segundo capítulo, a identidade do cadáver é revelada, e somos introduzidos à figura da Bruxa. A partir daí, a história se desdobra em uma colcha de retalhos de relatos: um personagem fala sobre outro, compartilhando fofocas conhecidas por toda a cidade, e as vozes se alternam abruptamente, assumindo a narração com vigor.


O que poderia ter sido apenas uma nota de rodapé sensacionalista transforma-se em uma exploração profunda das vidas dos personagens, mergulhando nas rachaduras de suas existências e desvendando as motivações por trás do assassinato da Bruxa. O terceiro capítulo nos leva ao “dia” do crime, revelando que as histórias e impulsos dos personagens orbitam em torno dos detalhes que os levaram ao momento fatídico.


Cada capítulo destaca um personagem, desdobrando sua biografia, caráter e os eventos que o moldaram, como se abrindo uma caixa chinesa, onde cada nova revelação dá voz aos envolvidos e seu papel na história. A narrativa começa com o cadáver, depois explora a infância da Bruxa, o mito do tesouro, e segue com Yesenia, Luismi, sua avó, e a confissão de Munra. Norma surge como um ponto de inflexão para Luismi, e a trama se complica até o trágico desfecho na casa da Bruxa.


As vozes narrativas se acumulam, formando um vendaval de histórias que se tornam furacões, alimentados pelas crenças e emoções dos personagens. Se não fosse pelo crescente desespero, talvez o desfecho pudesse ter sido diferente. Mas o desespero se transforma em desesperança, e o acúmulo de fracassos cria um vórtice que arrasta para a morte, deixando um corpo na vala comum, símbolo da desolação que permeia “Temporada de furacões”.


No romance, o epicentro é o enigma do cadáver da Bruxa, entrelaçado com a essência de La Matosa, uma localidade que evoca as memórias de Comala e Santa María. É um lugar onde a esperança parece ter se esvaído, deixando apenas os campos de cana, as mangueiras e o rio serpenteante. A reconstrução de La Matosa surge com a estrada que conecta o porto à capital, trazendo um novo fôlego econômico, mas a morte da Bruxa lança uma sombra de estagnação sobre a cidade.


A narrativa começa pelo fim, com o avô recebendo o corpo da Bruxa, e a história se desenrola em retrospectiva, revelando as vidas entrelaçadas dos habitantes. Cada capítulo é um redemoinho de emoções e desespero, que, apesar de suas tragédias individuais, unem os personagens em um destino comum. O capítulo final oferece um lampejo de luz, uma homenagem às crenças mexicanas sobre a morte, onde, mesmo após o fim mais sombrio, as almas são guiadas para o descanso eterno.


Uma obra dividida em oito segmentos, onde os personagens emergem e reivindicam sua existência em um universo que frequentemente os ignora. Eles lutam com resiliência e determinação para serem vistos e ouvidos. A Bruxa, o Lagarto, Munra, Norma, Luismi e Brando são algumas das figuras que se movem entre a tangibilidade e a penumbra, entrelaçando seus destinos em uma trama de desejos e acasos. Eles habitam um cenário que molda suas tragédias pessoais, que, apesar de sua natureza dolorosa, representam uma celebração da vida e da luta pela existência.


A jornada dos personagens nos leva por caminhos tortuosos, enfrentando desafios como dependência química, abuso sexual, misoginia, discriminação, homofobia e pobreza, até os labirintos do tráfico de drogas e corrupção. “Temporada de furacões” se destaca como um retrato fiel e multifacetado dos problemas sociais, oferecendo uma visão ampla do estado de nossa sociedade sem simplificações.


“Temporada de Furacões” de Fernanda Melchor é uma obra notável por sua autenticidade e valor literário. Com uma narrativa crua e sensível, o livro captura a realidade trágica de um país e das vidas que o compõem. Sem cair no moralismo, desafia o leitor a abandonar o cinismo e a indiferença, convidando-nos a compreender a perspectiva daqueles que mais sofrem. É uma tragédia moderna que se afasta do heroísmo épico, focando-se nas pessoas comuns, cujas histórias de dor e realidade são tão intensas que ofuscam os heróis épicos tradicionais.


O vento atravessava a planície e agitava as folhas das amendoeiras das copas e formava redemoinhos de areia entre as sepulturas distantes. A água está chegando, disse o avô aos mortos, enquanto contemplava com alívio as nuvens gordas que enchiam o céu. Deus o abençoe, a água está chegando, repetiu, mas não tema (p. 221).


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