Resenha: Oratório, de Ana Salvagni

Foto: Oratório, novo livro de Ana Salvagni / Arte digital

Falar sobre este livro requer um cuidado meticuloso, pois não se trata apenas de uma obra poética, mas de uma análise profunda e espiritual de uma artista com múltiplas carreiras e talentos que se desenvolvem sob o fino tecido da vida. Ana Salvagni é poetisa, cantora, regente, artista, vivente, sobrevivente, aclamada, única, visceral, apaixonada e sobretudo, dotada de grandes talentos em todos os níveis esféricos do ser humano. Publicado pela editora Laranja Editorial, oratório, é o terceiro livro escrito pela autora, que, como se nota, se desdobrou a se reescrever o sentimentalismo espiritual inerente ao ser humano com o cuidado a quem se desdobra a viver a vida entendendo sua finitude e expondo-a ao âmago das relações de vida e da existência. 


Tendo como inspirações grandes nomes da literatura como Hilda Hilst, Vinícius de Moraes, Manoel de Barros, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade, Ana se mostra prolífica em desvendar o ser humano por meio de suas reflexões poéticas acerca da espiritualidade e vida, como expresso também em sua música 'era aquilo só': Eu via a vida tão diferente, tão diferente do que ela é Tinha saudade de tanta coisa, não sei de quê. [...] Mas uma noite, veio um tufão e carregou [...] E eu vi que a vida não é mais nada, era aquilo só. A poetisa expressa, de forma acalentadora e tranquila a descrição de uma vida baseada em sentimentos de nostalgia e saudade profunda doutros momentos e da destruição de suas idealizações acerca da vida com a chegada do inesperado, essa característica expressa com maestria em sua música, leva-nos a compreender a finitude e brevidade da vida, sobretudo, de nossas preces diárias caminho à morte iminente em meio à travessia da vida, como em PRECE II: anjo nosso da noite de ninguém / guarda os olhos do dia / enquanto nos perdemos em funda travessia / canta e silencia incanssável indagação / enquanto, traje de plumas e espada em punho, dançamos e perpassamos camadas / defende nosa predestinação à morte / enquanto, irreais, existimos. 

Já no poema, casulo, a autora descreve em metáfora análoga à casa e ao conforto provocado pelo conhecido, a autora reflete acerca dos momentos de transformação em meio a reclusão, refletindo sobre sua vida e emoções em meio à um estado de introspecção, através do fortalecimento através de seu caminho de autocuidado: 


CASULO

caso descaso 

refaço a teia sem perceber

há sete dias no vão

na casa que me alimenta

no casulo que é morte e é vida também

que é luto e é aprumar-se 

lavo os panos alívio gavetas

recolho-me aos incômodos

às inconclusas preces me deito

sou eu mesma a minha rede

e ainda que eu saia e olhe o mundo

ainda que eu encontre alguém pelo caminho

durmo ainda, pupa

mais sete dias e deixo a estufa 

meu asilo meu exílio

a casa que me devolve 

as asas


A obra, um emaranhado de preces elaboradas em relação a necessidade constante de transformação interna e dos afagos inexistentes em meio a caminhada da vida, Ana, em sua prolífica sutileza com a voz e escrita transcende as reflexões acerca da vida e da vivência. A obra que se abre em Prece I: sagrado altar das belezas / dos impossíveis propósitos, dos importantes abraços / diante de ti, humanamente, peço / não me deixe mais padecer do medo / e do arremedo / porque assim foi / e que eu, vicejante, seja. Refletindo acerca dos impossíveis e inalcançáveis propósitos da vida, a autora, humanamente, pede em oração: não me deixe mais padecer de medo e do arremedo, encontrando-se em síntese versa, com sua força interior no espiritual e na sua conexão paulatinamente frenética e constante com a autorrealização um sinal de que tudo ficará bem. Uma prece, um pedido.

Já em partilha, (p.26), há uma oração em prol do humano, da vida. 
aos filhos o amor em corpo, palavra e fotografias / o sublime silêncio depois da história / a contemplação / o doce-amargo lavrar da memória, expõe uma reflexão acerca do amor enraizado nos filhos em relação ao poder existente na vida que se esvai rapidamente, como a saudade de momentos simples e complexos de uma saudade latente, como a de um momento de histórias à cama entre pais e filhos no 'doce [momento] amargo [passageiro] da vida. Segue sua prece em 'a ninguém a armadura de dores maciças / a ser arremessada de alguma altura / ou dissolvida com um pranto qualquer', retrata e ressignifica o pedido de não mais a quem possa sentir a dor não passageira, frequente e latente, que ninguém experiencie a tristeza imposta pelo pranto por motivos quaisquer que sejam, que todos possam, em síntese, experienciar os momentos sem se sentirem atingidos de forma tão direta no sentimento e na experiência. Desdobra-se aos momentos simples da vida, como 'aos vizinhos a minha música [da vida], não a que se canta [...] mas a que sai da boca da torneira, no tanger dos prendedores no varal [...], aos pais, o ardor de mais uma vida de um filho, aos irmãos, as lembranças que para sempre permanecem, aos netos, os poemas e jabotis [memórias, lembranças] que carregam consigo por todos os tempos.

Em suma, o livro "Oratório" de Ana Salvagni é uma obra que transcende as barreiras da poesia e se torna uma profunda reflexão sobre a espiritualidade e a vida. Com inspirações em grandes nomes da literatura, a autora demonstra sua habilidade em desvendar os mistérios da existência e nos leva a refletir sobre nossas próprias jornadas. As preces e reflexões presentes nas páginas do livro nos desafiam a olhar para dentro de nós mesmos e a buscar a transformação interna necessária para enfrentar os desafios da vida. Com uma linguagem poética e envolvente, Ana Salvagni nos convida a repensar nossas relações com o mundo e a viver de forma mais plena e consciente. Uma leitura que com certeza tocará o coração e a alma de todos que se permitirem mergulhar nas profundezas de suas páginas.

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